Município mobiliza GRAC para ações preventivas diante de eventos climáticos em Santa Catarina |
por Antonio Carlos Pereira, bacharel em Administração de Empresas pela Unoesc
Graças à interiorização do ensino superior, a UNOESC implantou em Capinzal o curso de Pedagogia, no ano de 1998. Alunos recordam as aulas na Escola Municipal Viver e Conhecer, porém a partir do mês julho de 2004 a unidade passou a atender na Cidade Alta, em sede própria.
Hoje a instituição oferece dezenas de opções de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado em muitas cidades, mas em 1978 a então FUOC, Fundação Universitária do Oeste Catarinense, tinha apenas dois cursos, ambos em Joaçaba: Bacharelado em Administração de Empresas pela FAJO, Faculdade de Administração e Licenciatura de Pedagogia, pela Faculdade de Educação. Eu havia sido escolhido pelos colegas como orador na colação de grau da 5ª. Turma da FAJO, que aconteceu há exatos 48 anos, no dia 20 de maio, e enquanto redigia o discurso fui convidado pelo Diretor, meu saudoso amigo Aurivan Massignan, a colaborar com a incipiente Revista Roteiro.
Confesso que isso me causou grande satisfação, porém trazia consigo igual – ou maior – preocupação, pois ao escrever para o órgão intelectual da região eu precisaria estar à altura dos demais colaboradores. Altura? eu tenho 1,85m - mas... como alcançar a categoria, o estilo daqueles professores e doutores que colaboraram na edição anterior? Como esperar tanto de quem teve sua formação literária nos “Bolsilivros Bruguera”, que eu devorava na adolescência ao invés das “Grandes Obras da Literatura Universal”? De que me valeriam os gibis da Disney, os de suspense, policiais, faroeste, Zorro, Batman, Tarzan, Flash Gordon, Recruta Zero, tantas HQs, enfim, toda essa “cultura inútil”!
Eu sempre gostei da boa música, então direcionei o foco à influência do rock’n’roll na minha geração. E foi lendo, pensando, pesquisando e ouvindo meus discos de vinil que decidi falar sobre Robert Allen Zimmermann, o músico e poeta americano conhecido como Bob Dylan, que eu desconhecia e hoje admiro. E fui rascunhando, datilografando e refazendo até sentir que estava bom.
Escrevi “O Sonho Jovem”, quase um ensaio, que foi publicado em três edições da Roteiro, entre abril e dezembro de 1978 analisando como o fim da Segunda Guerra provocou anos de frustração, raiva e revolta nos jovens, mas também trouxe a esperança na música e na cultura, modificando radicalmente usos e costumes da civilização. Apresentei traduções de algumas letras do Dylan e falei dos músicos que alimentaram o “sonho jovem”: de Little Richard a Raul Seixas, passando por Bill Halley & Comets, Elvis, Beatles, Stones, Dylan e os pioneiros nativos Carlos Gonzaga, Celly Campello, Roberto e Erasmo Carlos.
Acesse https://osdiscosdobolinha.blogspot.com/ para ler aquele ensaio.
“Há tanta gente, simplesmente não consigo agradar a todos. Como não posso agradar a todos, é melhor não agradar a ninguém”, afirmou Bob Dylan na introdução do livro que reuniu suas canções e versos. Ele foi o primeiro músico a ganhar o prestigiado Prêmio Nobel de Literatura "por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana". Isso aconteceu em 2016. Mas 38 anos antes, naquele ensaio, eu analisava os textos poéticos do bardo e a qualidade excepcional de suas letras, uma riqueza de coloridas imagens, de fio político cortante, sempre com alta qualidade poética.
No texto eu afirmava ser necessária uma resposta que traduzisse literariamente a insatisfação e a revolta dos jovens. Foi Dylan quem deu a resposta e teve a coragem de indagar: “Quanto tempo ainda as balas de canhão irão voar, antes de serem banidas para sempre?” (Blowin’ in the wind, 63); ele soube dizer coisas como: “venham, mães e pais, e não critiquem o que não podem entender... pois os tempos, eles estão mudando” (The times, they are a-changin’, 64); e ainda “qual é a sensação de não ter casa, como um total desconhecido, como uma pedra rolante?” (Like a rolling stone, 65). Ele mesmo afirma: “a resposta, meu amigo, está soprando com o vento!”
“The dream is over”, afirmara o ex-Beatle John Lennon: “O sonho acabou! E a conclusão a que cheguei era simples, quase ingênua ao retrucar: “Lennon errou quando pronunciou o fim do sonho, pois para nós, jovens, o sonho é como a esperança: sempre existirá!” Ou, como disse Belchior: “o que há algum tempo era novo e jovem hoje é antigo! e precisamos todos rejuvenescer”
"a-wop-bop-a-loo-mop-a-lop-bam-boom". Há um termo, “Baby Boomer”, que define pessoas nascidas após o fim da Segunda Guerra Mundial, entre 1946 e 1964 (tempo de grande explosão demográfica, ou baby boom). Foi sobre tais pessoas que procurei falar. Partindo dessa definição, a primeira parte do meu texto iniciava com essa onomatopéia acima reproduzida, o “grito de guerra” do rock and roll, a representação verbal de um padrão de bateria criada em 1955 por Little Richard, na introdução de “Tutti Frutti”: A vocalização única e a irresistível batida anunciaram uma nova era na música, que ficou ainda mais conhecida quando foi relançada no primeiro LP do Elvis, em 1956.
E citei três filmes de 1955: “Vidas Amargas” e “Juventude Transviada” (ambos com James Dean) e “Blackboard Jungle”, adaptação de um romance escrito por Evan Hunter que se tornou um clássico do cinema ao retratar os desafios de lecionar em uma escola pública noturna de Nova Iorque: “Sementes de Violência”, estrelado por Glenn Ford como o professor idealista Richard Dadier e Sidney Poitier como o aluno rebelde Gregory Miller.
O rock and roll atingiu os jovens a partir desse filme, o primeiro a incluir uma música do estilo em sua trilha sonora. "Rock Around the Clock", de Bill Haley & His Comets, toca nos créditos de abertura e se tornou um marco, catapultando o rock para o estrelato mundial. Devido ao comportamento rebelde dos jovens retratados na obra, o filme e a música foram alvo de grande polêmica e proibidos em várias cidades da época - o estopim o transformou em um fenômeno global.
Se os Beatles foram a grande banda, Elvis representa um fenômeno único e a sua importância é inegável, pois foi o grande pioneiro, o primeiro a ousar expressar, com a voz e o corpo, as sensações provocadas pela música. Muito antes que se falasse de “sociedade permissiva” ou que George, John, Paul e Ringo falassem do desejo de segurar sua mão, em “I wanna hold your hand”, Elvis já insinuara que o amor é sexo - e sexo é prazer. Sua música era feita para dançar e a dança é uma expressão aberta da sexualidade.
Assim, entre discos de vinil, páginas datilografadas e referências que atravessaram décadas, “O Sonho Jovem” acabou sendo muito mais do que um simples artigo acadêmico. Foi o testemunho de uma geração que encontrou na música, na poesia e na rebeldia cultural uma forma de compreender o mundo e de questionar suas injustiças. Aquele jovem estudante da FAJO, inseguro diante dos intelectuais da Revista Roteiro, demonstrou que também existe valor nas leituras populares, nos quadrinhos, nos filmes, no rádio e no rock and roll que embalavam seus dias. Afinal, cultura não se mede apenas pelos clássicos das bibliotecas, mas também pelas emoções e inquietações que moldam a vida das pessoas.
Hoje, ao revisitar aquelas reflexões escritas em 1978, percebo que o sonho continua vivo. Mudaram os tempos, os costumes, os meios de comunicação e até a maneira de ouvir música, mas permanece no ser humano a necessidade de sonhar, criar, contestar e recomeçar. Talvez seja exatamente isso que Bob Dylan, Lennon, Belchior e tantos outros tentaram nos dizer: enquanto houver juventude de espírito, haverá esperança soprando ao vento - e cada geração encontrará a sua própria canção para transformar o mundo.
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