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'FÉRIAS, DOCES FÉRIAS!'

  • - Evani Marichen Lamb Riffel (Pedagoga e Psicopedagoga).

Dias de não Fazer Nada...

                 Por Evani Marichen Lamb Riffel

         Pedagoga e Psicopedagoga 

      O dia convidativo e ensolarado, tece um céu com intensos flocos, nuvens de algodão branquinho, camuflando cinzentos barquinhos que se intrometem naquela alvura infinda, de lá para cá, de cá para lá, num olhar viageiro.

      Ah! Férias, doces férias, servidas em bandejas viageiras, que glamour de combinação: férias x viajar!

      Em dias de fazer nada, de nada fazer que esteja naquela agenda pessoal cotidiana chamada rotina, uma varanda e uma cadeira preguiçosa, são quesitos à mala desta viagem inesquecível: férias de infância guardadas no baú das lembranças!

       Estimado(a) Leitor(a), penso que, como eu, tu, ele... Nós todos temos guardadas lembranças que estampam e bordam o primeiro babado do *"Vestido de Laura", a doce infância que não volta jamais, mas veste o segundo babado do "Vestido de Laura", a maturidade, costura o terceiro babado, a velhice, e faz morada em todos... Entre as doces lembranças aquelas férias inesquecíveis de quando feliz criança!

      (...)

      Longas... Breves férias... Na Tia mais querida deste e do outro mundo... Se ele existe!

      Tia de quem? -Minha, tão minha! Mas divido, empresto ela, nas doces lembranças!

      Arrumar a mala, rumar à rodoviária e de passagem na mão, coração acelerado rumar à casa da Tia querida e hospitaleira. Avistar da janelinha trancada do ônibus de linha, sabe, aquela janela emperrada que só um Tarzan conseguia abrir?

Abrir para ver tudo e não ver nada, a não ser estimar a cada curva, a cada lembrança dos lugares percorridos a saber se o casarão amarelo ocre de madeira, com vidraças de bordas marrons, estava próximo... imenso e acolhedor casarão da Tia inesquecível!

      Ufa! Consegui puxar a cordinha da parada a tempo para saltar dos pensamentos e do ônibus!

      Chego criança contente na porta e vejo a tia na lida da casa, o tio na outra porta grande que é a venda, saudações amáveis e acolhedoras da tia querida, do tio e das primas e primos, casa cheia, cheia de vida. O vaivém de compadres, comadres e da freguesia da venda, enchiam aquele casarão de bom papo e rodas de tertúlia animadas no fim das tardes!

      Os primos, a filharada dos tios, enchiam de histórias, risos e brincadeiras os baldes de água puxada da fonte para consumo doméstico e limpeza acirrada do casarão de tantos cômodos... A imensa venda que era limpada a gritos e a rigor da família, onde todos se mexiam,  para ter garantido o pão de cada dia, inclusive as visitas que vinham de férias e adoravam agradar a Tia querida, com préstimos ainda vagarosos de criança. A prima mais velha, que era muito fagueira e divertida, chamava o "Juvenal" para puxar baldes e mais baldes de água da bica. Ele, o Juvenal, era uma figura popular por aquelas bandas, era nanico e brincalhão e adorava trocar o serviço de puxar água, por guloseimas da venda e pela tradicional bolacha Maria que ele muito apreciava. É, lembro que muitas e muitas histórias foram inventadas, brincadas, criadas com o Juvenal.

            À noite, os sonhos e o bom sono reparador eram ali embalados no colchão de palha e nos travesseiros de pena, sem antes a boa prosa, histórias de fantasmas e aparições e para espantar o medo, a guerra de   travesseiros, depois do boa noite e Deus te abençoe da tia. E... ainda dormir no meio das primas, para afugentar o resto do medo de alguma aparição  fantasmagórica!

      -Có- co-ri-có-có...

       O galo canta e desperta para o esperado dia cheio de deliciosas atividades campeiras. O café cheiroso coado em coador de pano pela tia, enquanto a cuia roda e a mesa farta é posta.

      Já desço fagueira com a prima até a estrebaria de balde na mão, para ordenhar as vacas. O balde espumante acolhe o leite fresco que é fervido na leiteira tamanho família e na correria quase transborda na fervura, é acudido pelo gritão da tia: -Meninas, cuidem o leite na fervura!

      Saciadas no café matinal, eu e a prima predileta, lavamos e secamos a louça, limpamos a vasta cozinha e depois a Tia diz: -Vão brincar meninada, aproveitem as férias! ,

...Tudo corria bem até que o primo mais velho não chamava de volta, aos gritos para limpar e engraxar seus sapatos... Psiu!!! Tínhamos medo e respeito por ele e fazíamos o mandado rapidinho, mas ele era muito querido por todos e pelo padrinho que na história era meu pai, que o chamava carinhosamente de "meu phat". Tanto que esse primo hoje, adora voltar para estas bandas, onde nasceu, para recordar e reviver aqueles  bons tempos, revendo a parentada. Sabe, aquela visita "do primo rico?"

      ... Mas nós meninas, depois do dever cumprido íamos..

 Brincar de casinha no galinheiro, bem limpinho, fazer comidinha de verdade, bordar nossas histórias infantis ao som dos rumores do campo, embalados no cochicho das aves domésticas empoleiradas no outro galinheiro habitado, no mugido das vacas que vinha do curral, do peão arando o campo, o arado em punho puxado por bois, acompanhado do "eia boi, eia Pintado, anda, anda o arado, mais o ruído seco da foice roçando o potreiro, num capão com peão matreiro...

"Óh! Que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

 Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!..."   Casimiro de A breu

      ...Da infância, das férias na Tia querida, que na despedida descia com o "metro" uma peça de tecido  da venda (lojão), onde vendiam de tudo um pouco, de fumo picado, cereais na tulha, café moído na hora, bolacha Maria em latões, sabão,  sebo e salame do açougue do meu saudoso pai, produtos de açougueiro, comprados pelo tio para revender na venda, entre outros tantos itens comercializados, mais as imensas prateleiras de tecidos, brim gabardine, cretones, veludos, sedas, brim listrado de roça, algodão cru, chitas e chitões para os mais diversos gostos, dos quais a Tia me  presenteava, com um belo corte  de estampas floridas! Tia especial que vive nas doces lembranças da menina em férias, onde quando o gerador de luz própria pifava, o entardecer era iluminado pelo lampião.

      O retorno das férias, lembro, era feliz também, pois, a saudade do pai e irmãos apertava e, não via a hora de mostrar o presente da Tia, que seria costurado em um vestido todo de babados floridos, na fila da nossa costureira da época, outra saudosa tia avó.

      "Férias, doces férias", hoje marcadas em um dia de não fazer nada, só de lembrar, de contemplar os babados floridos do vestidinho, que o tempo levou!

      O saudoso Rubem Alves disse em louvor à inutilidade:

"-Foi em meio a esta inutilidade sem culpa de fazer nada, que me dei ao luxo de ler livros que há muito tempo me esperavam na estante."

      Leitor(a), no segundo ou no terceiro babado do "Vestido de Laura", aí vai uma sugestão de férias: viajar nas férias, (em  crise), com bons livros!

P. S.

*Poema citado: O Vestido de Laura (Cecília Meireles);

*Qualquer semelhança com pessoas ou histórias passadas, não terá sido mera coincidência!

     

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