por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, presidente da SCAJHO de 2008 a 2012
Eu me lembro com saudade o tempo que passou! Naquele histórico 30 de agosto do ano 2003, o Diário Catarinense publicava: “A cidade de Joaçaba comemora hoje a inauguração do Teatro Alfredo Sigwalt, após 25 anos de obras e investimentos de R$ 500 mil. O novo espaço cultural tem tratamento acústico, climatizado e salas multiuso”.
Presidente da SCAJHO Carlos Lechner, ENIO de OTempo Capinzal, vereador Chico Moreira Lopes, A C PereiraNo ano de 1977 o Ministério da Educação e Cultura (MEC) havia aprovado o projeto de construção do Teatro de Joaçaba. A Scajho possuía um terreno com área de 309 m² na Av. XV de Novembro e o trocou por outro de 584 m², na Rua Tiradentes, sem que os permutantes pagassem qualquer valor. Como aquele também não apresentava as condições necessárias para construção de um teatro houve nova permuta, com o sr. Mário Zabott, dono de um terreno medindo 1.224 m² na Rua Roberto Trompowsky, o qual daria condições para a construção. Nessa negociação foi pago o valor de Cr$ 400.000,00 (quatrocentos mil cruzeiros). Na época, o presidente Telismar Gewher concretizou as permutas e, de posse legal do terreno, entregou a construção para a empresa ganhadora da licitação, a Consela, Construtora Serrana Ltda., de propriedade de Angelo Colbert de Carli, seguindo projeto dos arquitetos Arthur Peruzzo e Jair Cardoso.
A construção iniciou na segunda metade da década de 1970 mas ficou inacabada por muitos anos, ao fim dos quais resultaria em um espaço projetado para a iniciação de crianças, jovens e adultos na arte da música, da dança, da expressão corporal, do canto e também dos componentes da orquestra, solistas e coralistas. Hoje com diversas oficinas culturais em atividade e atendendo centenas de alunos a cada ano, promove espetáculos de qualidade e contribui de forma significativa para a transformação da sociedade.
O Teatro impressiona pela sua imponente arquitetura, em forma de piano, e é o orgulho da cidade. Com 459 lugares, acústica perfeita e excelente acabamento interno, recebe o louvor dos visitantes e elogios dos atores, cantores e músicos que nele se apresentam, concretizando o sonho do Maestro.
Foi a vinda de Alfredo Sigwalt a Joaçaba, em 1952, que deu início ao movimento artístico conhecido pela sigla SCAJHO — Sociedade de Cultura Artística de Joaçaba e Herval d’Oeste, e virou realidade o sonho de apresentar operetas e sucessos internacionais com solistas, coral misto, ballet e bailado.
Natural de Castro-PR, descendente de tradicional família alemã de artistas e músicos de Dresden, dotado de extrema sensibilidade, o maestro Sigwalt foi um excelente violinista, compositor, arranjador e regente. Quanta cultura, quanto conhecimento, quanta delicadeza no trato com as pessoas. Recordo a frase definitiva que ele cunhou: "Uma cidade vale pela cultura de seu povo".
Ele escrevia as partituras para cada um dos músicos, vindos dos três estados da região Sul. Eram migrantes alemães, austríacos, italianos, poloneses que ele conhecia e convocou aproximadamente trinta deles, metade dos quais eram daqui e outros das cidades de Caçador, Concórdia, Erechim, Piratuba, União da Vitória, Videira. Donos de invejáveis qualidades artísticas e culturais e dispostos a participar de um empreendimento artístico musical, pois desde 1942 existia aqui a Sociedade “Cultura Musical” de Cruzeiro e Erval — esses eram os antigos nomes de Joaçaba e Herval d’Oeste.
Para adaptar-se às necessidades, em 1963 foi reformulado o estatuto da antiga banda e o nome foi alterado. Tendo à frente o renomado Maestro Alfredo Sigwalt, e com suas estruturas reorganizadas, voltou a brilhar na região, promovendo belíssimas apresentações da orquestra de concertos, com solistas vocais, grupo cênico de cantores e coral misto, projetando a cidade como capital cultural artística do Planalto e Oeste Catarinenses. À frente do cenário artístico por mais de quatro décadas, foi o principal responsável pela existência do Teatro, embora tenha falecido sem vê-lo concluído.
Participei mais ativamente a partir de 1977, quando minha esposa Marina foi convidada a integrar o coral, o que fez com alegria e companheirismo. Como não sei cantar, passei a ser o Mestre de Cerimônias da Scajho — algo que sempre fiz com muito orgulho, trajando smoking preto e gravata borboleta.
Tive a felicidade de acompanhar o maestro durante décadas e registrei em áudio e em vídeo algumas das apresentações da orquestra e do coral, pelos três estados do Sul. Essas gravações comprovam o que estou contando, momentos de inestimável valor.
Em 2015 incentivei e promovi um Concerto comemorativo ao centenário de nascimento do Maestro Sigwalt, onde foram apresentadas algumas obras dele.
Essa é a SCAJHO, que em breve será perenizada no livro “O Palco da Cultura: Teatro Alfredo Sigwalt”. Por anos a fio a professora Leda Silva Kerber cataloga depoimentos e grande acervo fotográfico, além de partituras e composições escritas pelo próprio Sigwalt, tornando-se a fiel guardiã do precioso legado deixado por ele. A história sobre a cultura de Joaçaba e o povo culto que a cidade abriga é comprovada pela competência de colaboradores que estão assessorando a mim e a Leda, pesquisadora, organizadora e coautora do livro. São pessoas dedicadas à cultura da nossa amada “Terrinha”: Luciana Reese Pereira Tesser, Luiz Fernando Spessato, Marilena Zanoello Detoni e o material está sendo ricamente organizado pelo hervalense Rafael Nodari Casado.
A obra reúne pesquisa e vivência, contendo o sentimento dos agentes da própria história e por isso a publicação se reveste de um significado especial, por se preocupar em tornar visíveis os aspectos do processo histórico, local e regional. A publicação do livro, fruto da memória de seus componentes, constitui importante contribuição para o entendimento do processo histórico da Sociedade, de seu Teatro e de sua gente. Estão na Galeria de Presidentes da Era do Teatro: Jaire F. Almeida, Anna Lindner von Pichler, Ivo Dallanora, Antonio Carlos Pereira, Carlos Lechner, Neiron Luiz de Carvalho, Marilena Detoni, Sérgio de Carli, Luiz Neri Karloh.
Com a palavra a senhora Anna Lindner von Pichler, Presidente Benemérita da SCAJHO: “A cultura que vivenciei em meus sonhos de criança resplandece nos sorrisos de centenas de alunos que aprendem no Teatro que o sonho continua, porém na prática, embalado por mãos e mentes de bem, que nos permitem continuar sonhando”.
Nosso “Palácio de Emoções”, como a ele se refere o poeta Jaime Telles, tem sido palco de formaturas, lançamento de livros, mostras culturais, exibição de filmes, shows de humor, dança, peças teatrais, música clássica, além de centenas de atrações — regionais: o violinista Simão Wolf, o Grupo Etnia de Concórdia, a luzernense Família Horn; nacionais, como Chico Anysio, Guilherme Arantes, Kleiton & Kledir, o sanfoneiro Adelar Bertussi; e até de outros países, a exemplo da Orquestra de Sopro da Suíça, Grupo Mazowsze de Ballet Nacional da Polônia, Ballet Real da Dinamarca, Grupo Cubano Vocal Tempo, Grupo folclórico espanhol MackFeck, Star Beatles da Argentina. Mas posso assegurar que nada justifica tanto a existência da nossa Casa de Espetáculos como quando ali se apresentam artistas locais e regionais e recebem aplausos de amigos, parentes e vizinhos, caso da Carlos Gomes Big Band e dos alunos das nossas Oficinas Culturais.
Nosso corpo docente congrega excelentes professores, que amam seu ofício: Antônio Damaceno (violão), Danilo Correia (Arte Cênica), Jaqueline Romualdo (Violino), Marçal Oliveira (Violão, Flauta) Marta Spessato Dallarosa e Tiago Costa da Silva (ambos Canto Coral). Nossos bailarinos e seus instrutores Ane Prando, Everson Besbati, Ingrid Lima, Luiz Israel David e Monica Pozzebon estão entre os melhores, fato comprovado nos recentes festivais de dança.
Como se percebe, o Teatro de Joaçaba é uma verdadeira escola de arte onde nenhum aluno paga para aprender. É um privilégio, porém, uma enorme responsabilidade, cuja continuidade nos preocupa. Afinal, os governos vêm e vão, mas a cultura precisa continuar. Por isso somos igualmente gratos pelo auxílio de empresas abnegadas e da mídia regional, que conhecem a causa e ajudam a manter as diversas atividades, dando oportunidade a crianças, jovens e adultos, fazendo do Teatro uma casa viva de cultura.
Ele permanece como a materialização de um sonho que atravessou gerações. Mais do que uma construção de concreto, luzes e cortinas, é um espaço construído pela perseverança de muitos, pela dedicação de artistas, professores, dirigentes, colaboradores e voluntários que acreditaram que Joaçaba precisava — e merecia — ter uma casa à altura de sua vocação cultural.
Celebrar no presente esses 23 anos é olhar o passado com gratidão e o futuro com esperança. Que o Teatro Alfredo Sigwalt continue sendo palco dos sonhos de nossa gente, formando artistas, revelando talentos e mantendo viva a certeza de que uma cidade se mede também pela cultura de seu povo. E que, por muitos e muitos anos, novas gerações possam subir ao palco ou ocupar suas cadeiras para confirmar, com a fronte erguida e o coração emocionado, que o sonho do maestro continua vivo — e que a SCAJHO seguirá cantando pela vida.
E que as futuras gerações continuem repetindo com orgulho as palavras da composição escrita pelo maestro Sigwalt: “Eu vou pela vida cantando, cantando de fronte erguida, cantando a gente esquece os males desta vida!”
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