Antonio Carlos “Bolinha” Pereira http://osdiscosdobolinha.blogspot.com/
“Meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê...” Você lembra, não lembra? Carinhoso é o nome de uma composição apenas instrumental, feita pelo Mestre Pixinguinha em 1917. Vinte anos depois João de Barro, o Braguinha, escreveu estes versos inspirados, que todos sabemos de cor.
João de Barro emocionou a minha geração ao nos apresentar a Coleção Disquinho, com estorinhas baseadas em contos de fadas, fábulas, cultura popular e festas típicas - cantigas de roda e muita música, em discos coloridos de vinil. A meninada se deixava seduzir, especialmente com o inesquecível tom colorido dos tais disquinhos: verde, amarelo, roxo, azul, vermelho, rosa... As músicas eram compostas ou adaptadas por ele, e os personagens interpretados nas vozes melodiosas de atores e atrizes da era do rádio e do Teatro Disquinho. que continua alegrando crianças de todas as idades
Eram cantigas de roda e adaptações. Ainda em 1939 Braguinha havia produzido o primeiro disco destinado ao público infantil: “Branca de Neve e os Sete Anões” com o auxílio luxuoso de dois astros da música brasileira: Dalva de Oliveira fazia a voz da heroína, Carlos Galhardo era o príncipe.
O lançamento da Coleção Disquinho ocorreu em 1960 com A formiguinha e a neve, História da baratinha, Festa no céu, A cigarra e a formiga, O soldadinho de chumbo, Chapeuzinho vermelho, A gata borralheira, Pedro e o lobo, Branca de Neve e os 7 anões, Pinochio, O patinho feio. Depois vieram A bela adormecida, Alice no país das maravilhas, João e Maria, Os 4 heróis e muitos bichos: O gato de botas, O macaco e a velha, Os 3 porquinhos, O velho o garoto e o burro, O lobo e os 3 cabritinhos, O veado e a onça, Dona galinha e seus pintinhos, O coelhinho da Páscoa... A coleção encerrou em 1983, com Aladim e a lâmpada maravilhosa, mas até hoje os mais de setenta disquinhos, 50 dos quais foram lançados em CD, continuam alegrando crianças de todas as idades. (Relação completa no site “indicetj.com/disquinho/”).
Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, nasceu no Rio de Janeiro em 1907, filho de Jerônimo José Ferreira Braga Neto e Carmen Beirão Ferreira Braga e faleceu quase cem anos depois, em 2006. Tempo suficiente para ser considerado o compositor de carreira mais longa no Brasil, com mais de 400 músicas gravadas e regravadas até nossos dias.
Seu apelido vem dos tempos em que participou de um conjunto vocal chamado “Bando de Tangarás”. O nome foi inspirado na lenda dos tangarás, pássaros “cantadores” e “dançarinos” que, sempre em grupo de cinco, quatro formando roda e o quinto no centro, saltitam, cantam e dançam alegremente. Braguinha sugeriu que cada um dos integrantes adotasse um pseudônimo com nome de pássaro, e escolheu João de Barro, nome com o qual entrou para a história da MPB. É que ele estudava Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes e resolveu adotar como pseudônimo justamente o pássaro arquiteto, porque o pai não queria ver o nome da família circulando no ambiente da música popular, malvisto na época. Seu Jerônimo gostaria de saber que o filho é considerado uma das maiores glórias da música popular brasileira.
Algumas de suas composições alcançaram muito sucesso e a lista dos parceiros é grande: Lamartine Babo, Antônio Almeida, Noel Rosa, Alcyr Pires Vermelho. Com Alberto Ribeiro escreveu Balancê, (1937) o fox-canção Copacabana (1946) e a singela valsinha Linda Borboleta, gravada em 1938 por Carlos Galhardo. A letra do samba-canção “Laura” é exemplo do lirismo daqueles tempos: “O vale em flor, a fonte, o rio cantando; o sol banhando a estrada, frases de amor. Laura, um sorriso de criança, Laura, nos cabelos uma flor...”
A "Valsa da Despedida", baseada na tradicional canção escocesa "Auld Lang Syne", foi adaptada por Robert Burns e transformada em valsa para o filme A Ponte de Waterloo (1940). A versão em português, feita por João de Barro e Alberto Ribeiro, foi gravada com grande sucesso por Francisco Alves e Dalva de Oliveira e sua interpretação, disponível no Youtube, é um clássico da música popular, ainda cantada nos dias atuais: “Adeus, amor eu vou partir/ ouço ao longe um clarim/ Mas onde eu for irei sentir os teus passos junto a mim...”
Sucederam-se inúmeras composições de carnaval: Yes, nós temos bananas (1938); Chiquita Bacana, Pirata da perna de pau, Tem gato na tuba (todas em 1949) e Vai com jeito, imortalizada na voz de Emilinha Borba em 1957. Ele foi homenageado no enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com o tema "Yes, nós temos Braguinha", vencendo o carnaval de 1984.
E aproveitou uma chance de ouro: autorizado por Charles Chaplin, Braguinha criou uma letra para a canção "Smile", uma das composições mais icônicas e emocionantes do eterno Carlitos, que a compusera como tema instrumental, servindo como um pilar emocional na trilha sonora de seu antológico filme "Luzes da Ribalta" (Limelight, 1952). Geoffrey Parsons e John Turner escreveram uma letra e a pedido de Chaplin a canção foi gravada por Nat King Cole. Em 1955 Braguinha, verdadeiro monumento da cultura popular, escreveu essa memorável versão de "Smile": "Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar/ Os teus dias tristonhos, vazios. Sorri, quando tudo terminar/ Quando nada mais restar do teu sonho encantador/ Sorri, quando o sol perder a luz e sentires uma cruz/ Nos teus ombros cansados, doridos/ Sorri, vai mentindo a tua dor/ E ao notar que tu sorris todo mundo irá supor que és feliz".
Deve ser por isso que, ao lembrar de Braguinha, a memória venha sempre acompanhada de um cheiro antigo de sala de estar, do chiado suave do toca-discos, da agulha descendo com cuidado sobre o vinil, da infância guardada em disquinhos coloridos. Era um tempo em que a música entrava devagar na casa e ficava, sem pressa de ir embora. As histórias cantadas embalavam tardes, ensinavam afeto, despertavam sorrisos e, sem que a gente percebesse, iam moldando o jeito brasileiro de sentir. Braguinha se foi, mas deixou espalhados pelo país pequenos pedaços de infância, como se fossem migalhas de pão guiando o caminho da saudade. E toda vez que uma dessas canções reaparece — no rádio, na lembrança ou no coração — é como se o passado desse um aceno discreto, dizendo baixinho que ele ainda está ali, inteiro, esperando para ser ouvido outra vez.
A história da marchinha “Pastorinhas” é bem curiosa. (Pastorinhas é o nome dado ao grupo de mulheres que cantam e rezam durante os dias da Folia dos Santos Reis, os Reis Magos). Em parceria com Alberto Ribeiro ele ganhara o concurso de músicas da Prefeitura do Rio de Janeiro para o Carnaval de 1938 com “Touradas em Madri”, mas os concorrentes alegaram que a música era um “pasodoble”, ritmo estrangeiro, e houve novo julgamento, para o qual inscreveu “As Pastorinhas” garantindo o primeiro lugar com a marchinha, que teria sido assim composta: “Eu e o Noel Rosa, no Café Papagaio, fizemos uma música bonita, para a qual demos o nome “Linda Pequena”, mas ela não alcançou sucesso nenhum. Então, eu lembrei dela, reformei um bocadinho a letra, o trecho que dizia “linda pequena” mudei para “linda pastora,” “moreninhas” virou “pastorinhas”, e “pequena que tens a cor morena” por “morena da cor de Madalena”. Assim nasceu essa obra-prima, composição de Noel Rosa e Braguinha: “A Estrela-Dalva no céu desponta/ e a lua anda tonta, com tamanho esplendor. E as pastorinhas, pra consolo da lua/ vão cantando na rua lindos versos de amor. Linda pastora, morena da cor de Madalena/ tu não tens pena de mim, que vivo tonto com o teu olhar. Linda criança, tu não me sais da lembrança/ Meu coração não se cansa de sempre e sempre te amar.”
Quanto ao tal “pasodoble”, Touradas em Madri seria cantado em coro pelos duzentos mil torcedores que lotaram o Maracanã para ver o escrete canarinho vencer os espanhóis por 6 a 1 na Copa de 50. Sim, a temível Seleção da Espanha que ameaçara esmagar a Seleção Brasileira, agora tinha de ouvir o coro: “Eu fui às touradas em Madri parará tchim bum, bum, bum parará tchim bum, bum/ E quase não volto mais aqui pra ver Peri beijar Ceci/ parará tchim bum, bum, bum parará tchim bum, bum. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha/ Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba, caracoles, sou do samba não me amoles/ pro Brasil eu vou fugir... isso é conversa mole para boi dormir”. Porém um dos torcedores não estava cantando. Pálido, emocionado, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, não conseguia cantar e chorava de emoção ao presenciar aquilo tudo.
E talvez ali, no meio daquele Maracanã em transe, Braguinha tenha entendido melhor do que ninguém o alcance do que havia construído. Suas canções já não lhe pertenciam: eram do povo, do carnaval, do rádio, do cinema, das ruas e das arquibancadas. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas gerações falando com tanta leveza de coisas tão profundas. João de Barro ergueu, nota por nota, uma arquitetura afetiva onde o Brasil aprendeu a sorrir, a sonhar e a cantar junto. E enquanto houver uma criança girando um disquinho, um bloco entoando uma marchinha ou um coração batendo feliz ao ouvir “Carinhoso”, Braguinha seguirá vivo — discreto, alegre e eterno, como a música que ajudou a inventar.
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