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por Antonio Carlos Pereira, apresentador de “Os Discos do Bolinha”
O estilo musical conhecido como “brega” é um gênero brasileiro marcado por canções populares altamente românticas e dramáticas. Suas letras falam de dor de cotovelo, amores e botecos, conquistando multidões em todo o país. O termo abrange parte da produção musical de nomes consagrados, como Altemar Dutra e Nelson Gonçalves.
Estudiosos afirmam que o gênero surgiu nas décadas de 1940 e 1950 com influências do samba-canção, do bolero e da Jovem Guarda. Grande sucesso antigamente, o cantor Vicente Celestino (1894–1968) é um dos precursores do gênero musical dramático.
O termo preconceituoso "brega" designava casas de entretenimento para o público adulto masculino. Em meados da década de 1960 passou a designar um tipo de música romântica com arranjo musical sem grandes elaborações, vinda das camadas populares e considerada cafona e menos elegante, sendo usado de forma pejorativa para definir músicas populares consideradas piegas ou de baixa qualidade.
Nas regiões Norte e Nordeste ele resiste, se consolidando como uma grande força musical. A cidade de Belém do Pará tornou-se a principal referência na consolidação do "brega" como estilo musical. Inicialmente restrito aos bailes em casas noturnas da periferia belenense, a cena adquiriu grandes proporções regionais com as "aparelhagens", festas com grande sistema de som potente e ponto de encontro para dançar que surgiram na periferia da cidade na década de 1940. Com o tempo, o estilo ganhou forte identidade própria e hoje é considerado patrimônio cultural em regiões do Pará e Recife.
Para os ouvintes de rádio os programas de auditório eram o “templo” da música brega, espaço privilegiado para os artistas terem a sua voz divulgada nos lugares mais distantes desse imenso Brasil — e mais tarde, para os telespectadores, que podiam assim conhecer e identificar o visual de quem interpretava aquelas canções que calavam fundo na alma do povo. Muitos dos programas eram regionais, mas cumpriam sua função.
Alguns dos programas mais representativos foram o “Almoço com as Estrelas” e o “Clube dos Artistas”, apresentados pelo casal Airton e Lolita Rodrigues na antiga TV Tupi. Hebe Camargo também marcou época, recebendo em seu sofá os nomes mais queridos do público. Silvio Santos, o mais popular dos apresentadores, está fazendo falta, pois a sucessão familiar apresenta sérias lacunas. Ele lançou Augusto Liberato, o Gugu, que também já nos deixou. Raul Gil trazia atrações musicais e passou pelas TVs Bandeirantes, Tupi, Record e SBT. Flavio Cavalcanti procurava fazer o tipo mais sério, atraindo grande audiência. Outro grande comunicador foi Edson Cury... “Bolinha, está na hora de você entrar na linha!”
Todos seguiam mais ou menos a linha lançada por Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”: cantores famosos e principiantes, calouros cômicos e jurados polêmicos. Esses apresentadores foram de extrema importância para a divulgação da música e dos rostos de centenas de artistas populares. Certamente a música tida como brega não teria chegado a lugares tão distantes, do Oiapoque ao Chuí, das capitais aos vilarejos mais remotos, sem esses programas de grande inserção popular. O papel do rádio e da TV na divulgação e consagração desses artistas foi vital para a sobrevivência e até para a lapidação do termo brega — de adjetivo pejorativo nos anos 1970 a gênero musical consistente e respeitado nos dias atuais.
Acredite, se quiser: Raul Seixas compôs alguns “clássicos” do estilo brega, quando era produtor artístico na CBS, no início dos anos 70. “Se ainda existe amor” (Balthazar) “Estou completamente apaixonada” e “Ainda queima a esperança” (Diana), “Doce, doce amor” (Jerry Adriani), “Lágrimas nos olhos (José Roberto), “Obrigado pela atenção” (Renato e seus Blue Caps). Além de “Sessão das 10”, gravada em 1974 pelo próprio Raulzito.
Sem analisar a qualidade musical, cito alguns dos principais artistas e músicas consideradas “clássicas do gênero brega” — uma “play list” incompleta, à qual cada um pode acrescentar seus próprio favoritos:
Agnaldo Rayol (“A praia”, “Minha Gioconda”), Agnaldo Timóteo (“A galeria do amor”, “Meu grito”, composta por Roberto Carlos), Amado Batista: Um dos maiores vendedores de discos do país com sucessos românticos (“Chance", “Seresteiro das noites"), Ângelo Máximo (“A primeira namorada”, “Domingo feliz), Anísio Silva (“Alguém me disse”, “Quero beijar-te as mãos”), Cauby Peixoto ("Conceição", "Bastidores"), Claudio Fontana (“Adeus ingrata”, “Eu não lhe telefono mais”), Evaldo Braga (“A cruz que carrego”, “Sorria, sorria”), Fernando Mendes (‘Você não me ensinou a te esquecer”, “Sorte tem quem acredita nela”), Gilliard ("Aquela nuvem", "Pouco a pouco"), Heleno (“Não são palavras lindas”), José Augusto (“Aguenta coração”, “De que vale ter tudo na vida”), Lindomar Castilho ("Ébrio de amor", "Você é doida demais"), Márcio Greyck ("Impossível acreditar que perdi você", "O mais importante é o verdadeiro amor), Nelson Ned (“Domingo à tarde”, “Tudo passará”), Odair José (“Minhas coisas”, “Eu vou tirar você desse lugar”), Paulo Sérgio: “Não creio em mais nada”, “Quero ver você feliz (♪♪ ♪♪ meu filho, Deus que lhe proteja, e onde quer esteja eu rezo por você) ; Reginaldo Rossi conhecido como o "Rei do Brega", famoso pelos sucessos "Mon amour, meu bem, ma femme" e "Garçom"; Sidney Magal misturou o romantismo com a ousadia latina (“Sandra Rosa Madalena”, “O meu sangue ferve por você”), Waldick Soriano: marcante com seus óculos escuros e voz firme (“Tortura de amor”, "Eu não sou cachorro não"), Wanderley Cardoso ídolo romântico da Jovem Guarda (“Doce de côco” “O bom rapaz”), Wando: músicas românticas com letras passionais e forte apelo teatral (“Moça”, "Fogo e paixão").
Além de figuras extravagantes como Marcondes Falcão Maia, que afirma: "brega é a história do povo brasileiro, das nossas raízes bem populares”. Como não tinha voz e talento para seguir seus ídolos a fundo, percebeu que só se destacaria usando sua personalidade irreverente. Assim, lançou "Black people car" (versão para o inglês de "Fuscão preto"). Ele tentou gravar uma versão bem-humorada da cantiga infantil "Atirei o pau no gato" usando a melodia e o arranjo de "Another brick in the wall" do Pink Floyd. No entanto, a banda inglesa negou a autorização e o lançamento oficial foi proibido, o que não impede Falcão de cantá-la em shows.
Lembramos de algumas cantoras, como Angela Maria (“Babalu”, Tango pra Teresa”), Carmen Silva (“Adeus solidão”), Cláudia Barroso (“Quem mandou você errar”, “Se Deus me ouvisse”) e duplas como Jane e Herondy (“Não se vá”, “Por muitas razões eu te quero”), Juanita e Richard (“Guarde o seu amor só para mim”). Sem falar dos “sertanejos descornados”. Ou de bandas como a Calypso e o tecnobrega no Pará, que modernizaram o ritmo.
Sucesso de Norte a Sul do Brasil, essa vertente da nossa canção romântica virou patrimônio afetivo de grandes contingentes das camadas populares: muitos brasileiros cresceram, amaram, sofreram e continuam ouvindo aqueles cantores e compositores populares, as vozes chamadas de “bregas” ou “cafonas”, ouvindo as canções pelo rádio, televisão e serviços de alto-falantes ou em discos e fitas cassete. Mais tarde em compact-disc e atualmente em plataformas digitais.
Definir a existência ou não e quem pertence ao "estilo brega" é um debate feito por pesquisadores, críticos, artistas e público, mas estamos longe de chegar a um consenso. Críticos relacionam a "música brega" com "mau gosto" como se fosse algo vindo de um processo de estruturação de classes que tende a beneficiar determinados grupos em particular.
Talvez seja justamente aí que esteja a maior força da música brega: ela nunca precisou da aprovação dos críticos para conquistar o coração do público. Falou de amores impossíveis, traições, abandonos, saudades, encontros e desencontros com uma linguagem simples, direta e, muitas vezes, exageradamente sentimental. Foi trilha sonora de romances, separações, festas, bares e noites solitárias. E, se algumas dessas canções provocavam risos ou eram tratadas como “cafonas”, o tempo acabou mostrando que aquilo que parecia passageiro permanece vivo na memória de várias gerações.
Hoje, chamar uma música de brega já não significa necessariamente diminuí-la. É reconhecer uma maneira muito brasileira de cantar o amor e a dor, com emoção à flor da pele e sem medo do exagero. E sobrevive porque pertence ao povo que cantou, dançou, chorou e guardou essas canções como lembranças de uma época. Afinal, como acontece com toda música que realmente alcança a alma, pouco importa o rótulo: quando começam os primeiros acordes e alguém diz “essa música marcou a minha vida”, brega deixa de ser apenas um gênero musical e passa a ser memória.
Quem tiver interesse em saber mais, encontra informações detalhadas nos livros “Almanaque da música brega” de Antonio Carlos Cabrera (Ed. Matrix, 2007), “Eu não sou cachorro, não”, de Paulo Cesar de Araújo (Ed. Record, 2002).
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