ATENÇÃO, MOTORISTAS: MORRO DO CAXAMBU INTERDITADO PARA APLICAÇÃO DE ASFALTO |
MORRE CIDADÃO DE RUA
JOSÉ TELLES DA SILVA, O CACHOPA
VALEMOS O QUANTO TEMOS EM BENS
Uma cena chocante pode ver quem chegou à Capela Mortuária Florindo Lovatel, anexa ao Cemitério Municipal de Capinzal, onde foi velado o morador de rua José Telles da Silva, o Cachopa como era conhecido. Ele foi encontrado morto debaixo da ponte da Rua Carmelo Zocolli, na área central da cidade, próximo ao Calçadão, sexta-feira, 06 de março. Quem o encontrou por volta das 18h30min foi Valdecir Moreira, 31 anos, que de imediato ligou para a PM e lhe orientaram para acionar o Corpo de Bombeiros e estes levaram Cachopa ao Hospital Nossa Senhora das Dores após liberado o corpo, foi velado na mencionada capela.
Cachopa era morador de rua, primeiro dormia debaixo da Ponte Irineu Bornhausen, mais tarde passou a ter como lar a margem do Rio Capinzal embaixo da Ponte próximo ao Calçadão. Todo dia ficava sentado em três locais, na escada de um laboratório, numa mureta ao lado de uma loja de confecções e no muro de uma auto mecânica. Não tinha estudo, mas dava um show de educação e respeito para com os outros.
Apesar de ser um morador de rua, uns empresários do ramo da pintura, de esquadrilhas (aberturas) e de um bar, mais os chapas (estes atuam na carga e descarga de caminhões), sensibilizados foram até a Capela e encontraram Cachopa no caixão com a roupa suja, a habitual, sendo velado apenas à luz de duas velas e lâmpadas acessas no recinto. Os amigos tiraram a roupa rasgada e suja, então colocaram a camisa, calça, meias e tênis numa gentileza de um dos colegas. Os amigos também amarraram uma faixa na cabeça dele para segurar a boca fechada, pois quando lá chegaram estava com a boca aberta, numa cena de chocar qualquer um. Uma mulher que por lá passou, providenciaram uma toalha rendada de mesa e improvisou como véu, servindo para cobrir o falecido. O pessoal passou a noite velando o morador de rua que também é um cidadão, apesar de não ter documentos pessoais, pois há mais de dez anos tinha perdido a identidade (RG).
A Prefeitura dá auxílio funeral, sendo um Kit até R$ 450,00. Caso for gasto mais, a família deve se responsabilizar pelo restante do gasto.
Para Cachopa hoje não faz mais falta um lar, nem comida e água que tanto lhe faltou, porém, com certeza, este não precisará passar pela balança do juízo final ao provar em vida que a bondade é uma virtude de poucos, por isto e muito mais alcançou o reino do céu. Ele partiu e não deixou sequer um bem material, mas mesmo com toda a sua simplicidade demonstrou ter caráter e alto astral, sempre transmitindo alegria mesmo de barriga vazia, pois o que era pouco ou quase nada para muitos, para ele chegava a ser um banquete e até uma simples roupa, calçado e cobertor considerava artigo de luxo.
Viveu em torno de 60 anos, sofreu a triste ironia do destino, mesmo assim, jamais se queixava de viver na pobreza, principalmente levantava a mão pro céu por ter verdadeiros amigos, a exemplo daqueles que foram lhe dar o último adeus. Morreu Cachopa e também um pouco de nossa cultura, pois queira ou não acabou ajudando a escrever alguma coisa da realidade de nossa terra e de nossa gente.
Valdecir solidário com o amigo até no último instante.
O véu no certo é uma toalha de mesa redonda.
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