por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira , 75 anos, joaçabense
O Dia Nacional do Patrimônio Histórico é comemorado em agosto. Preservar o patrimônio histórico de uma localidade é poder contar sua história com mais propriedade e veracidade, respeitando o que foi construído, pois retrata uma determinada época que não volta mais. Sempre se sonhou em termos um museu em Joaçaba, a exemplo de outras cidades da região, como aqui em Capinzal.
Lanço então a ideia de um Museu Visual - o qual, por sinal já existe, tanto na internet como em periódicos impressos. Segundo o Conselho Internacional de Museus (ICOM), “um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e do seu meio ambiente, para estudo, educação e fruição”.
Cito como exemplo este mesmo jornal O Tempo, que desde 1989 ajuda a preservar a História de Capinzal e cidades circunvizinhas, ao abrir generosos espaços para tantos colunistas, sem esquecer os blogs que resgatam memórias do passado, como https://osdiscosdobolinha.blogspot.com/, e muitos outros portais na internet.
Joaçaba era conhecida nos anos 50 e 60 como a Capital do Oeste Catarinense e alcançou fama nacional ao sediar a 5ª Festa Nacional do Trigo, em 1955 e 1956. Com o incremento dessa cultura se acreditava que o país não precisaria mais importar trigo de outros países, para o bem do povo brasileiro e alegria dos triticultores. A produção era significativa e Joaçaba já havia realizado em 1952 a Festa Estadual do Trigo, pois existiam na região mais de 30 moinhos desse cereal. O mais antigo deles, o Moinho Specht, ainda está em plena atividade, com 100 anos de existência. Sim, desde 1925 a Specht Produtos Alimentícios Ltda. produz farinha de trigo e derivados nas linhas doméstica, profissional e industrial. Uma farinha para cada uso: na moagem, cada tipo de farinha básica é selecionada e fica disponível para a composição de fórmulas específicas visando atividade comercial, doméstica ou de confeitaria e panificação.
Santa Catarina, que já foi um razoável produtor de trigo no período de 1950-1959, tem reduzido a cada ano a área cultivada. Segundo a Conab em 2022 foram colhidas no Brasil 10,55 milhões de toneladas do cereal, volume que atende boa parte da demanda nacional. Mas a previsão para o corrente ano aponta queda de 22,8%. Para atender ao crescente consumo, muitos moinhos buscam trigo e farinha em outros países.
Naquele ano de 1955 o prefeito de Joaçaba José Waldomiro Silva havia renunciado por ter sido eleito deputado estadual. Como ainda não tínhamos a figura do vice-prefeito o Presidente da Câmara de Vereadores, sr. Albino Biaggio Sganzerla, foi escolhido por seus companheiros para substituí-lo até o final do mandato, quando aconteceria a eleição que consagrou Ruy Klein Homrich, 32 anos, como o mais jovem prefeito do Brasil.
Albino Sganzerla Filho recorda que Joaçaba também se destacava por já possuir duas emissoras de rádio – uma de cada partido: a Catarinense – da UDN - e a Herval d’Oeste – do PSD, dois jornais semanais (Cruzeiro e Tribuna Livre), dois grandes colégios de ensino médio (Frei Rogério para os meninos, Cristo Rei para as meninas), a importante ACIOC, Associação Comercial e Industrial do Oeste Catarinense, representante do comércio local e da indústria exportadora de máquinas agrícolas, a BR 282 ligando a nossa região Oeste ao Litoral, além do Aeroporto Santa Teresinha, o mais antigo do interior catarinense (inaugurado em 1949 recebia aviões de três companhias, com conexão para todas as regiões do país); a imponente Igreja Católica (construída para ser uma Catedral no futuro, segundo a visão do Frei Edgard Löers), o Tiro de Guerra, dois times de futebol – Atlético, tricolor com azul vermelho e branco e o Comercial, colorado em vermelho e branco - e um estádio municipal, a maior ponte com vão livre do mundo (a Emilio Baumgart, levada pela enchente de 1983).
Mas voltemos ao assunto: entre os dias 10 daquele mês e 8 de janeiro do ano seguinte foram realizados simultaneamente o 5º' Congresso Nacional de Triticultura, a 1ª Exposição Agro-Industrial de Joaçaba e a 5ª Exposição Nacional do Trigo. O recém emancipado município de Herval d’Oeste colaborou com a realização da Festa, pois o Congresso de Triticultura aconteceu no Clube Hervalense e a Exposição foi realizada nos pavilhões da Cibrazem, atual Conab. As edições anteriores haviam acontecido sempre no Rio Grande do Sul desde 1951, a primeira em Bagé, depois Julio de Castilhos, Erechim e Carazinho, voltando para as gaúchas Cachoeira do Sul e Passo Fundo.
Reportagem da época informava que na primeira semana de dezembro do ano 1955 se poderia dizer que em Santa Catarina todos os caminhos levavam a Joaçaba conforme amplamente divulgado pela imprensa de todo o país “Joaçaba atraiu as atenções e diariamente, durante um mês, ônibus, trens, aviões e carros particulares ali despejaram milhares de visitantes. A pacata cidade de trabalho, plantada às margens do Rio do Peixe, viu-se transformada em centro de turismo. O dinâmico prefeito, sr. Albino Sganzerla, e o prefeito recém-eleito sr. Ruy Klein Homrich, foram incansáveis em proporcionar aos convidados especiais uma fidalga recepção, tendo ainda envidado todos os esforços para que os visitantes em geral ficassem satisfeitos durante a sua permanência na Capital do Oeste Catarinense”.
Entre as inúmeras autoridades e convidados especiais, estiveram presentes o ministro da Agricultura e os Secretários da Agricultura, Fazenda, Segurança Pública e da Viação e Obras Públicas, além de prefeitos de inúmeros municípios do nosso Estado, do Paraná e do Rio Grande do Sul. Também compareceram o governador Irineu Bornhausen e seu sucessor, Jorge Lacerda. Na cerimônia inaugural fizeram uso da palavra. Manoel Carmona Gallego, Juiz de Direito da Comarca, e Victor Peluso, secretário da Agricultura. Ao som do Hino Nacional Brasileiro, executado pela Banda de Música de Treze Tílias, foi hasteado o Pavilhão Nacional e após a bênção dos pavilhões pelo Bispo Diocesano D. Daniel Hostin os presentes puderam constatar a pujança tritícola do Oeste Catarinense e o alto grau de progresso alcançado pela indústria local, desde a máquina pesada para a lavoura e outros fins, até os delicados objetos de madeira esculpidos pelos artesãos que trazem no sangue a arte do Velho Mundo.
Às 18 horas do dia 10 de dezembro, nos salões do Clube Hervalense, procedeu-se à instalação do 5º Congresso Nacional de Triticultura, sob a presidência do sr. Eduardo Catalão, Ministro da Agricultura, que representava o presidente da República, o lageano Nereu Ramos. Na mesma noite aconteceu no Clube 10 de Maio grandioso baile, com a presença da Miss Santa Catarina, srta. Ana Maria Heusi Siqueira, de Itajaí, com quem tenho parentesco. Como Rainha foi coroada a srta. Neyder Massignan.
Choveu bastante desde o dia inaugural da feira e o desfile de carros alegóricos com equipamentos agrícolas foi transferido para 8 de janeiro, evento que reuniu aproximadamente nove mil pessoas, mesmo com o terrível calor reinante, encerrando com chave de ouro o magno conclave turístico. O sr. Francisco Lindner apresentou a afamada trilhadeira Universal, de sua fabricação, e o desfile contou com a presença de grande número de colonos que estavam desobrigados das tarefas relacionadas com a cultura do trigo.
A informação importante - e que motivou esta crônica - é que o evento foi filmado, e algumas pessoas lembram de haver assistido ao documentário no Cine Imperial. Agora, no entanto, um ilustre cidadão hervalense, de nome Omar Dimbarre, resolveu pesquisar e o encontrou. Omar, o “Dimba”, é um reconhecido produtor cultural com inúmeros serviços prestados ao resgate histórico de acontecimentos em nossas cidades e na região, tendo inclusive montado um museu em casa, mesmo sem incentivo oficial.
Pois agora Omar descreve o momento do achado: “Pessoal, é para comemorar! Localizei o filme que foi feito na 5ª Festa Nacional do Trigo, em Joaçaba, em 1955. Enquanto pesquisava a respeito na imprensa nacional descobri que uma produtora havia estado em Joaçaba filmando o evento, um curta-metragem de 10 minutos, que seria exibido nas grandes salas de cinema do país, antes dos filmes. Marketing para uma cidade que era festejada além do estado catarinense. Em uma das matérias surgiu o nome de uma produtora de Porto Alegre.”
“Entrei em contato com o neto do falecido proprietário da produtora, que me indicou em que local o filme poderia estar. Telefonei, mandei mensagem por e-mail e por WhatsApp. Recebi a resposta e consegui mais detalhes sobre o filme que foi gravado em Joaçaba, durante a V Festa Nacional do Trigo. A “Wilkens Filmes” foi a produtora. Fui atrás para descobrir se a produtora ainda existia, e encontrei o número do celular do neto do falecido dono da empresa. Entrei em contato com ele e falei sobre a importância do evento para a cidade. Ele me respondeu que não tinha mais nenhum dos filmes da produtora, mas lembrava que havia um filme sobre trigo, só não sabia o que era.”
“Os filmes foram doados para o Museu da Comunicação de Porto Alegre. Em contato com o museu, iriam averiguar se este filme fazia parte do seu acervo. Por e-mail veio a resposta positiva, pedindo um retorno, e entrariam em contato via telefone. O contato não aconteceu, e tentei por diversas vezes falar com eles, e nada. Mas consegui falar com um funcionário que iria verificar se o diretor do Museu estava no recinto, solicitaria que ele ligasse para falar comigo, pois assim estava programado. O diretor ligou, e ficamos um bom tempo conversando. Eu já tinha escrito via e-mail que sou produtor cultural, e que tenho interesse na preservação da memória de nossas cidades. Hoje ele me questionou sobre o meu interesse neste filme. Reafirmei o que já havia escrito, falei que estou finalizando um documentário que visa recuperar histórias populares, e que minha paixão por objetos históricos me levou a montar um museu dentro da minha casa, em 2019. Então, ele me falou sobre a condição da película. Uma parte dela, mais para o meio, está embolorada, e se eles abrirem o filme sem equipamento adequado, corre o risco de perder toda a filmagem. Para isto, precisam enviar para a Cinemateca Brasileira.”
Entusiasmado, Dimbarre explica: “Ele também quis saber o que eu farei com o filme em mãos. Repassei algumas ideias que tenho em mente. O Museu da Comunicação pode entrar como parceiro nesta recuperação, desde que eu os convença por escrito. Caso positivo, eles enviam o rolo de filme à Cinemateca para ser digitalizado, e depois me enviam uma cópia. Pedi sobre os custos. Ele me disse que não são tão altos, mas não falou se o Museu arca os custos com a Cinemateca, e a minha despesa seria somente o envio. Pediu que eu desenvolva um projeto, especificando o que eu quero fazer com o filme, enfim, querem que eu os convença que meu motivo é cultural. Na verdade, creio que já convenci o diretor. Ele se mostrou bastante interessado em colaborar para que este resgate aconteça. Tanto ele como outros funcionários do Museu da Comunicação de Porto Alegre estão sendo extremamente receptivos comigo.”
O filme está no Museu desde a década de 80. Conforme o que o diretor falou, estava guardado em cima de uma mesa, provavelmente com outros filmes que não foram digitalizados. Até hoje nunca foi utilizado. Estava se perdendo. Há mais de 40 anos, completamente esquecido. Assim como a maior parte das memórias deste país.
Mas, para nossa satisfação, a coisa repercute. Eis o que fala David José Frozza, um dos baluartes da preservação da nossa História: “Muito louco tudo isso, amigos Bolinha e Dimbarre! Encantado com esses depoimentos. A nossa história é a razão de nosso existir (mais ou menos isso, não necessariamente nessa mesma ordem). Parabéns por nos passarem todas essas informações valiosas. Quem viveu essa época de ouro tem motivos de sobra para se orgulhar. Valeu! E viva a nossa cultura sem fronteiras! Do Contestado a Sganzerla, da Scajho ao Teatro Alfredo Sigwalt, e do Bolinha às nossas memórias mais afetivas. Carinhoso abraço do Frozza”.
Dimbarre faz um pedido interessante: “Bolinha, tenho uma proposta para te fazer. Caso a recuperação da película resulte em um filme com tempo e qualidade suficientemente bons para uma exibição pública, exibirmos no teatro, em parceria. E se isto ficar pronto só o ano que vem, dá pra fazer um evento alusivo aos 70 anos da Festa. Topas?”
- “Com toda a certeza, Omar. Conte comigo!” respondi entusiasmado.
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