Sete em cada dez profissionais evitam conversas difíceis no ambiente de trabalho
Especialista alerta que a falta de diálogo pode comprometer decisões, enfraquecer a cultura organizacional e limitar a capacidade de inovação das empresas
Uma liderança que não recebe feedbacks sinceros. Um colaborador que identifica um risco, mas prefere não se manifestar. Uma equipe que concorda rapidamente para evitar desconfortos. Situações como essas são mais comuns do que parecem. Um levantamento feito pela plataforma norte-americana Bravely, especializada em desenvolvimento de lideranças e comunicação corporativa, mostra que 70% dos profissionais evitam conversas difíceis no trabalho.
Embora a maioria das organizações invista em processos, ferramentas e planejamento, poucas refletem sobre um aspecto essencial para a construção de uma cultura organizacional saudável: a capacidade de sustentar diálogos francos, especialmente diante de divergências, conflitos e decisões complexas.
Para Diego Alegre, especialista em transformação cultural, mestre em Design Estratégico e CEO do Arquipélago – Culturas que Transformam, existe uma percepção equivocada de que maturidade organizacional está associada à ausência de conflitos.
“Muitas empresas ainda confundem alinhamento com harmonia. Existe uma crença silenciosa de que equipes maduras são aquelas onde todos concordam, onde as reuniões fluem rapidamente e as decisões acontecem sem grandes questionamentos. Mas a transformação raramente nasce da concordância imediata”, afirma.
Segundo ele, quando os espaços para divergência diminuem, as pessoas passam a avaliar constantemente se vale a pena expressar o que realmente pensam.
“A discordância deixa de ser percebida como contribuição e passa a ser vista como risco. Aos poucos, as pessoas evitam levantar temas delicados, questionar decisões ou apresentar perspectivas diferentes. O problema é que aquilo que não é dito não desaparece, apenas deixa de ser discutido.”
Ainda de acordo com o consultor, o resultado pode ser uma falsa sensação de alinhamento. As decisões acontecem mais rápido, mas com menos profundidade. Ideias deixam de ser testadas, riscos deixam de ser antecipados e oportunidades de inovação acabam sendo perdidas, enfraquecendo as estratégias e a própria cultura organizacional.
A importância de criar ambientes onde as pessoas se sintam seguras para se manifestar também aparece em outras pesquisas. Dados da consultoria global Gallup mostram que apenas três em cada dez profissionais acreditam fortemente que suas opiniões são realmente consideradas no ambiente de trabalho.
Para Diego Alegre, organizações que desejam se adaptar a um cenário cada vez mais complexo precisam fortalecer sua capacidade de diálogo, especialmente diante das transformações aceleradas do mercado e das mudanças nas relações de trabalho.
“Os problemas mais difíceis das empresas raramente são resolvidos com respostas rápidas. Eles exigem diferentes perspectivas, escuta e disposição para enfrentar desconfortos. Quando uma organização perde a capacidade de ter conversas difíceis, ela também reduz sua capacidade de aprender.”
Como fazer para que as conversas aconteçam
“Culturas fortes não são aquelas que evitam conflitos, mas as que desenvolvem capacidade para lidar com eles de forma construtiva. Isso exige criar espaços de escuta, como rituais, workshops, reuniões facilitadas e aplicação de metodologias que ajudem as pessoas a abordar temas difíceis sem transformar divergências em disputas. Quando as conversas acontecem, a organização aprende mais rápido e toma decisões melhores”, explica Diego.
Para o especialista, um dos sinais mais preocupantes dentro das organizações é justamente o excesso de concordância.
“Nem toda reunião em que todos concordam é um sinal positivo. Muitas vezes, as reuniões que mais deveriam preocupar são justamente aquelas em que ninguém faz perguntas, ninguém apresenta contrapontos e todos saem aparentemente alinhados. O silêncio pode ser confortável no curto prazo, mas costuma cobrar um preço alto no futuro”, conclui.
Sobre a consultoria Arquipélago
O Arquipélago - culturas que transformam é uma consultoria especialista em transformação cultural que atua nas tensões organizacionais que comprometem aspectos como direção coletiva, mobilização e capacidade de crescimento. Com atuação baseada na abordagem do Design Estratégico, desenvolve diagnósticos culturais, projetos de ativação da cultura, jornadas de aprendizagem, workshops, convenções e processos colaborativos voltados ao fortalecimento da liderança, da comunicação interna e da capacidade de adaptação das organizações. Ao longo de sua trajetória, já realizou mais de 500 projetos para mais de 300 clientes de diferentes setores, incluindo cooperativas financeiras, indústrias, empresas de energia, instituições de saúde, educação e organizações do terceiro setor. Texto: Bruna Campos Fotos: Divulgação/ Arquipélago
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