por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, 75 anos
O sonho acabou! Numa entrevista publicada em dezembro de 1970 pelo jornal americano “Rolling Stone”. o eterno Beatle John Lennon alertava: The dream is over! “Todos nós crescemos um pouco, houve uma mudança, estamos menos reprimidos, tudo isso. Mas, na verdade, o jogo continua o mesmo. Eles continuam fazendo o mesmo tipo de coisas, vendendo armas, matando os pretos nas ruas e o povo continua vivendo miseravelmente no meio dos ratos, tudo continua igual. Dá vontade de vomitar. Eu acordei para isso também. O sonho acabou. As coisas continuam como eram, com a diferença de que eu estou com trinta anos e uma porção de gente usa cabelos compridos. Só isso!”
Voltemos um pouco no tempo, para entender melhor que sonho seria esse. Os jovens enfrentaram anos de frustração, raiva e revolta – mas havia a esperança de conquistar seus direitos no mundo, sem se sentir vigiados na maneira de falar ou dominados por qualquer um que tivesse mais idade.
Mas então, surgiu o tal do rock and roll. Foi uma revolução que atingiu milhões de adolescentes em vários lugares do mundo e, através da música e da dança, reagiram pela primeira vez contra os antigos valores. Foram os Baby Boomers os primeiros a crescer tendo a televisão como principal meio de informação na infância, adolescência e começo da vida adulta.
Em julho de 1954, Elvis Presley gravou "That's all right" e virou sensação internacional a partir de 1956, quando lançou seu primeiro LP na gravadora RCA. Suas apresentações na TV e seus polêmicos movimentos de quadril causaram furor na época. Sua carreira foi marcada pelo enorme impacto na cultura popular, consolidando-o para sempre como o "Rei do Rock". Em novembro do mesmo ano, estreou como ator no filme romântico “Love Me Tender”.
The Beatles, ingleses de Liverpool, estrelaram cinco filmes, começando com A Hard Day's Night (1964) e Help! (1965), ambos dirigidos pelo diretor americano Richard Lester; em 1967 Magical Mystery Tour, que mostrava o grupo e amigos em uma turnê. A banda também participou da animação Yellow Submarine (1968) e encerrou com Let It Be (1970).
Suas raízes remontam a 1957, quando John Lennon formou uma banda com amigos. No início de 1962 foram rejeitados pela gravadora Decca, mas seu empresário Brian Epstein conseguiu uma oportunidade para eles no selo Parlophone da EMI. Em outubro do mesmo ano lançaram seu primeiro compacto de sucesso, "Love Me Do". A partir de 1963 conquistaram o mundo com grandes turnês, álbuns clássicos e inovações em estúdio, comandadas pelo produtor George Martin. O grupo alcançou o estrelato mundial sob a liderança do quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. A banda mais influente de todos os tempos encerrou oficialmente suas atividades em 1970, mas o culto à "Beatlemania" continua a crescer.
Raul Seixas, em 1972, com uma performance explosiva e visual influenciado por Elvis Presley, “incendiou” a plateia do VII FIC, Festival Internacional da Canção, com sua composição "Let Me Sing, Let Me Sing" e repetiu o vitorioso grito de guerra que acompanhara toda uma geração: uah-bap-lu-bap-lah-béin-bum!
Essa onomatopéia fora popularizada no filme “Sementes da Violência”: na abertura, em seguida ao rugido do Leão da Metro, em um quadro-negro aparecia o título do filme "Blackboard Jungle", ao som de “Rock Around the Clock”, com Bill Haley & His Comets. No filme Glenn Ford interpreta um professor transferido para uma escola em um bairro degradado da cidade: tensões raciais, violência, gangs e apatia são a constante, onde os adolescentes fazem as regras e os funcionários simplesmente aceitam o fato de que perderam o controle. O honesto professor quer ajudar a mudar esse pequeno canto do mundo, porém, quando tenta se impor e exercer sua autoridade ele recebe muita hostilidade, tanto dos alunos quantos de outros professores.
A situação de “descontrole” da juventude, que depredava cinemas ao ouvir aquele rock, desagradou as autoridades. Em muitos casos, o filme chegou a ser proibido. Jânio Quadros, então governador de São Paulo, ordenou ao secretário de Segurança que “determinasse à polícia deter, sumariamente, colocando em carro de preso, os que promoverem cenas semelhantes; e, se forem menores, ao honrado juiz”. Com efeito, o juiz de menores baixou uma portaria proibindo o filme para menores de 18 anos, argumentando — com uma irônica precisão — que “o novo ritmo é excitante, frenético, alucinante e mesmo provocante, de estranha sensação e de trejeitos exageradamente imorais".
Esses pioneiros faziam música demasiado poderosa: ritmo irresistível, sax melódico, o eco da guitarra parece vir do fundo de um poço e o vocalista não canta, berra. Essa música introduziu várias das características musicais mais marcantes do rock e anunciou uma nova era na música — uma batida irresistível, estilo vocal poderoso com vocalização única e volume alto, batida e ritmo distintos: o jovem revira o corpo, estica o braço, encolhe a perna e joga pro ar...
Mas o cinema influenciava as pessoas havia muito tempo e outros filmes musicais usaram sucessos do gênero. Exemplar é a trilha sonora de Loucuras de Verão (American Grafitti, 1973), que marcou a história do cinema ao explorar a transição da juventude para a maturidade de forma realista e nostálgica, curtindo um momento final de inocência antes do chamado da vida adulta, com adolescentes, no último dia das férias de verão em 1962, passeando de carro e se divertindo em uma pequena cidade californiana ao som de muito rock'n'roll.
Talvez o rock and roll não tenha errado. Talvez tenha apenas prometido mais do que uma geração inteira era capaz de realizar sozinha. A música não acabou com as guerras, não eliminou a desigualdade nem derrubou as formas de preconceito e opressão, porque nunca foi um projeto político destinado a resolver os conflitos humanos. Sua missão era outra: despertar consciências, romper barreiras culturais e dar voz a milhões de jovens que, pela primeira vez, sentiram que podiam questionar, sonhar e exigir mudanças.
Apesar do forte apelo comercial, mostravam respeito e dignidade à classe trabalhadora, gente pobre que só buscava sobreviver. O rock tornou-se a trilha sonora de uma profunda transformação cultural, ampliando espaços de liberdade, influenciando comportamentos e ajudando a construir uma sociedade mais aberta à diversidade de ideias, costumes e modos de viver.
Décadas depois, muitos daqueles rebeldes de cabelos compridos tornaram-se pais, avós e alguns ocupam cargos de autoridade, mas as canções permanecem. Quando um acorde de guitarra ecoa, revive-se não apenas uma época, mas um ideal: o desejo humano de romper amarras e buscar um mundo melhor. O sonho descrito por Lennon pode ter perdido parte de sua inocência, mas não desapareceu por completo. Ele continua presente em cada geração que se recusa a aceitar a injustiça como algo natural e encontra na arte, na cultura e na música a coragem para imaginar novos caminhos. Se o rock and roll errou, foi apenas por acreditar demais na capacidade de transformar o mundo — e talvez esse tenha sido seu mais belo acerto!
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