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por Antonio Carlos Pereira, apresentador de “Os Discos do Bolinha” durante 50 anos
Ao volante de um clássico Ford Escort XR3 branco conversível Roberto Carlos deu uma carona para Ayrton Senna, que falou detalhes de sua vitória no GP do Japão e da conquista do campeonato de Fórmula 1 em 1988. Senna relatou uma experiência espiritual profunda, quando sentiu a presença de Deus na última volta da corrida. Confira: Roberto Carlos in Concert: https://www.senna.com/o-dia-em-que-ayrton-senna-ganhou-uma-carona-do-rei-roberto-carlos/
O improvável dueto do lendário tenor italiano Luciano Pavarotti com o romantismo do cantor brasileiro Roberto Carlos aconteceu no Estádio Beira-Rio em 4 de abril de 1998 e está disponível no YouTube. Acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre eles cantaram pela paz no mundo o “hino” O sole mio e a música clássica de Charles Gounod Ave Maria, uma prece cantada, com a voz do tenor atingindo notas muito altas e fortes, enquanto a voz suave do cantor brasileiro proporcionou um contraste calmo e emocionante.
Com sucesso estrelou 3 filmes e muitos programas na televisão: Roberto Carlos Especial de Fim de Ano (desde 1974); Acústico MTV (2001); Bossa Nova 50 Anos (2008, Roberto & Caetano Veloso e a música de Tom Jobim); Elas Cantam Roberto Carlos (2009), Especial RC 50 Anos (2009); Emoções Sertanejas (2010, Roberto e representantes do gênero “sertanojo”); Em Jerusalém (2011); Em Abbey Road (2015); Em Las Vegas (2018). E no ano de 2020, na pandemia do coronavírus, Roberto Carlos realizou duas lives históricas, diretamente de seu estúdio no Rio de Janeiro: a primeira em 19 de abril, pelos seus 79 anos de idade, a segunda no Dia das Mães, 10 de maio.
Encerro esse “passeio” pela discografia do Roberto com a brilhante colaboração do meu amigo paulistano Leandro Lima, que esclarece: “o grande barato dessas análises é justamente a crueza de serem a primeira audição, captando minhas primeiras impressões dos discos”.
ROBERTO CARLOS LP 1990 — Meu ciúme trata do sentimento possessivo num tom muito bom e com excelente cadência. Orquestra simples e o baixo mandando ver. O refrão é fantástico, de verdade! O naipe de metais faz um solo bonito e mais uma vez o refrão predomina e vai até o fim da canção.
Por ela tem ritmo de salsa abrasileirada de uma canção de José Manuel Soto. Música deliciosa, dançante e envolvente. No final tem o canto de RC com “narainananarai” um acerto em cheio, excelente!
LP 1991 — O disco flerta com os ritmos pulsantes da época e por isso você tem a impressão que simplesmente RC se rendeu à música sertaneja vigente, dada a grande ascensão da música sertaneja com duplas brotando de toda parte enquanto as tradicionais se consolidavam mais e mais; será que Roberto Carlos embarcou mesmo nesse trem? Todas as manhãs começa com a base da cozinha e Roberto vai cantando, no refrão a voz dobra e “Chuva fina no meu para brisa, visibilidade distorcida” tem um tom da moda no solo de viola.
Luz Divina um clássico da vertente religiosa do cantor e que é difícil não gostar, ainda mais se for cristão. “Essa luuuuuuz só pode ser Jesus”. Cadência firme e teclados formam boa base com floreios de guitarra e alguma pouca orquestração. O solo de guitarra aqui é lindíssimo, bem executado e encaixa com perfeição junto ao fundo orquestral. Gostei bastante!
LP 1992 — Mulher pequena tem o mesmo ritmo de “Por Ela”, porém a proposta latina dessa aqui me agrada muito mais, uma salsa com solo de violão sensacional. Repete a fórmula: canta dois versos e vem um arranjo de teclado.
Você como vai? começa com uma guitarra legal e vai se mostrando sofisticada. Um belo arranjo e andamento, letra bem legal e dá uma virada pra refrão inesperada e surpreendente, sensibilidade e inovação sem precedentes, uma baita música que varia, sai das linhas retas costumeiras e vai se infiltrando em linhas de muita criatividade.
Dizem que um homem não deve chorar, adaptação de Nova flor, de Palmeira, Mário Zan e Pepe Ávila ficou sensacional, uma das melhores do disco. O solo de violão é um primor e tem palhinha de castelhano no refrão. Acertos assim sobem muito o nível do disco, que melodia essa canção tem!
LP 1993 — Coisa bonita foi grande sucesso, assim como Obsessão e o grande destaque fica para Nossa Senhora (todas da dupla Roberto e Erasmo).
LP 1994 — Alô fez certo sucesso na época. O disco inicia com um telefone tocando e Roberto atende falando: “Diga logo de uma vez, o que você quer de mim?” Excelente início, música com cozinha direta, boa temática e melodia.
Ao virar pro lado B do bolachão me deparo com Jesus Salvador… a letra dela foi a resposta que o meu coração precisava; glorifiquei ao Senhor, a música é lindíssima e de todas que RC prestou ao serviço do louvor, essa realmente tocou no mais profundo de mim, afirma o Leandro.
LP 1995 — O disco começa meio sertanejado, com acordes bem característicos e Roberto dando conselhos a um amigo. Amigo não chore por ela é essa canção. Sinceramente, toda a métrica é moderna, radiofônica e poderia estar numa playlist caipira. O solo de violão é “bacana” mas, o “aiaiaiaiai” do refrão entrega: o Roberto estava antenado no chapéu de palha.
Entre as músicas religiosas Quando eu quero falar com Deus é bonita, viu? Que letra bem feita! Ótimo arranjo e vozes dobradas. Eu inclusive senti o coração palpitar enquanto escutava a canção. O refrão fantástico! Uns vão dizer que mais uma vez ele rima luz, cruz e Jesus, pois é isso mesmo, muito bom!
LP 1996 — Último álbum lançado em vinil. O destaque fica para as composições da dupla Roberto e Erasmo: Mulher de 40, Cheirosa, Quando digo que te amo, a religiosa O Terço e uma adaptação feita pelo Roberto para O homem bom, composição de Paulo Sette e Clayton Q, sobre a qual Fabiano Cavalcante fala em seu canal do YouTube e apresenta depoimento do próprio Roberto Carlos.
CD 1998 — Meu Menino Jesus é uma música religiosa que remete a épocas natalinas e o significado católico da cena do presépio. Uma bela canção, bela letra bem aos moldes do que ele já trouxe algumas vezes: as alusões de pedidos a Jesus, desejos dos fiéis e o simples na mesa dos necessitados.
A segunda aqui é O baile da fazenda com a participação de Dominguinhos na sanfona, resultando em um forró regional, ritmo irresistível do tipo “limpa banco”, convida pro arrasta pé.
O último disco realmente de inéditas na década foi o de 96, esse aqui tem 4 novas (mais Vê se volta pra mim e Eu te amo tanto) e 6 músicas ao vivo magníficas! De tanto amor ficou lindíssima. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos ganhou arranjo novo, encorpado e muito bonito! Amada amante (todas de 1971); Falando sério e Outra vez, dois clássicos de 1977.
Essa aqui é um espetáculo à parte: a orquestra fica tocando O diamante cor de rosa (de 1969) e Roberto vai falando do tempo em que os rapazes pagavam o “milk shake” das meninas, época da jovem guarda, a juventude, a namorada, o carrão, o beijo no escurinho do cinema — e emociona. Depois canta uma parte de Nossa canção de 1966, fantástico! Vale mais pelas músicas ao vivo, grandes clássicos em versões muito bem executadas.
CD Amor sem limite, 2000 — Esse disco foi lançado num momento delicadíssimo da vida do cantor, após o falecimento de Maria Rita, sua esposa. Independente do disco, eu tiro o meu chapéu pois em meio a tanta dor, Roberto ainda se propôs a falar com o seu público… cantar esses fatos exige um equilíbrio fora do comum!
O grande amor da minha vida já dá o recado do que viria nesse disco, música que descreve o momento em que conheceu o grande amor. Uma belíssima composição, que possui tudo que uma big band pode proporcionar, a mesma fórmula, andamento e melodia peculiar, um espetáculo.
Na faixa título Roberto abre o coração e declara: “vivo por ela, ninguém duvida porque ela é tudo na minha vida!” Amor sem limite é bonita e tem variações vocais interessantes, solo de guitarra bem executado mostra força na batida de violão com peso e leves floreios orquestrais.
Tu és a verdade Jesus segue a premissa religiosa do padrão RC de qualidade nessa parceria com Erasmo. Uma das raras vezes em que o tom menor é utilizado nesse segmento com a modulação no refrão para clarear o clima. Depois a cozinha, ou base rítmica: o grupo de instrumentos mantém o pulso constante e o ritmo da música vai com tudo até o final.
CD Pra Sempre, 2003 — Pra sempre começa falando que “tudo nesse mundo pode se modificar, mas o amor será pra sempre”. Roberto é intimista, fala dele mesmo numa saudade doída. A música tem floreios etéreos, com algumas características de “Emoções” na construção melódica. Uma carta de amor à saudade, fidelidade a uma mulher que foi muito amada.
Mais uma composição da dupla eterna, mas… O QUE É ISSO!?!? Uma batida cadenciada da cozinha e Roberto cantando e recitando ao estilo Gabriel o Pensador, meio hip hop, meio narração?! Isso é fenomenal, refrão matador. Variedade e genialidade! Seres humanos é um presente. Rima em cima de rima! Alguns podem discordar mas eu gostei, é bom demais!
As principais músicas religiosas dos últimos anos (compostas em parceria com Erasmo Carlos): 1991 Luz Divina, 1993 Nossa Senhora, 1994 Jesus Salvador, 1995 Quando eu quero falar com Deus, 1996 O Terço, 1997 Coração de Jesus, 1998 Meu Menino Jesus, 2000 Tu és a verdade, Jesus.
Eu ofereço flores foi composta pelo Roberto como um agradecimento aos seus fãs, ele apresentou essa balada romântica pela primeira vez em Cachoeiro do Itapemirim, sua cidade natal, em 2023. A letra fala sobre o carinho do público e o gesto tradicional de entregar rosas aos fãs no final de cada apresentação. A gravação mais recente foi lançada em 2024: Bicho solto. Outros sucessos neste século: 2005 Arrasta uma cadeira com Chitãozinho e Xororó, A volta (ambas de Roberto e Erasmo), Índia (Guerrero-Flores-J Fortuna), em 2011 Jerusalém de Ouro (Yerushalayim Shel Zahav, de Naomi Shemer), 2012 Esse cara sou eu (Roberto Carlos), 2017 Sereia (Roberto Carlos), 2017 Chegaste dueto com Jennifer Lopez (Kany Gaia-Roberto Carlos); 2022 Evidências (José Augusto e Paulo Sérgio Valle).
Como sócio de carteirinha do Fã-Clube Virtual e do Portal Clube do Rei coleciono livros, LPs, CDs e DVDs que adquiro e também “troco figurinhas” com generosos colecionadores, bons amigos a quem agradeço — alguns de lugares distantes como Petrolina (PE), Manaus (AM), São Paulo (SP): Adriano Thales, Carlyle Zamith, Messias da Silva e o Nelson Martelli, aqui de Chapecó (SC).
Roberto não retornou a Joaçaba após em 1967 e 1973, então fomos a alguns dos seus shows: Ginásio da Sadia em Concórdia, Teatro Guaíra e Centro Cívico de Curitiba, Vila Germânica de Blumenau, CentroSul de Florianópolis. Mas ainda não participamos das "Emoções em Alto Mar".
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Roberto Carlos atravessou gerações, se reinventou sem perder a essência e fez de sua voz a trilha sonora da vida de milhões de pessoas. Entre canções românticas, mensagens de fé, experimentações musicais e encontros memoráveis com grandes artistas ele continua gravando, emocionando plateias, recordista de público nos shows e na vendagem de discos, mostrando que a música não conhece limites de tempo.
Ele construiu uma obra que já ocupa lugar definitivo na história da música brasileira. Ainda assim, aos 85 anos sua caminhada parece desafiar qualquer ponto final. Se o passado revela um legado extraordinário, o futuro permanece como uma página em branco, pronta para receber novas melodias, novos encontros e novas emoções. Afinal, quando se trata do Rei, a pergunta permanece: depois de tudo o que já fez pela música, o que mais Roberto Carlos ainda fará para nos surpreender?
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