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LIGEIRINHO – Recado da Comunidade

CARTA ABERTA AOS DEPUTADOS ESTADUAIS Assunto: Santa Catarina continua sem um hino que a represente.


Diante da relevância histórica, cultural e cívica do artigo assinado por Jaime Telles, optamos por publicá-lo no Ligeirinho, considerando a profundidade do debate proposto e sua importância para a reflexão coletiva. O texto questiona, de forma fundamentada e respeitosa, a adequação do atual Hino de Santa Catarina como símbolo de identidade estadual, apontando a ausência de referências diretas ao Estado, ao seu povo e à sua diversidade. O autor defende que o hino vigente trata de temas nacionais, como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, comuns a todo o país, o que fragiliza sua função simbólica estadual. Ao propor a retomada do debate público e democrático sobre a criação de um novo hino, o artigo chama a atenção para o sentimento de pertencimento, a valorização da identidade catarinense e a responsabilidade histórica com as futuras gerações, justificando plenamente seu destaque neste espaço.

CARTA ABERTA AOS DEPUTADOS ESTADUAIS Assunto:

Santa Catarina continua sem um hino que a represente.

Senhores parlamentares,

Dirijo-me respeitosamente aos dignos representantes do Poder Legislativo do Estado de Santa Catarina, movido por um dever cívico que já não pode ser adiado: a necessidade de substituir, com maturidade e responsabilidade histórica, o Hino Oficial do Estado.

Um hino é, antes de tudo, afirmação de identidade. Não há identidade sem nome, sem território e sem pertencimento. Ao falhar como símbolo oficial, por si ele desdiz aquilo que pretende representar, falhando em sua função essencial. Esta não é uma provocação vazia. Trata-se de uma constatação objetiva: o atual Hino não trata sobre o Estado de Santa Catarina. Não contém, sequer, uma vírgula alusiva a ele. Então a pergunta é inevitável: como pode representá-lo?

A obra vigente não menciona o Estado, nem seu povo, sua formação histórica, sua diversidade cultural, territorial ou social. Não há, em toda a letra, qualquer elemento que identifique Santa Catarina como objeto da exaltação simbólica. Embora muitos defendam que o texto refere-se à então recente Proclamação da República, seu tema central é a abolição da escravatura — conquista nacional, honrosa e incontestável, mas que pertence a todos os estados da federação e, justamente por isso, não cabe como eixo exclusivo de um símbolo estadual.

Superadas justificativas caem por terra ao elucidarmos o que segue: há espantosa comparação com o Hino do Estado do Rio de Janeiro. Pasme! É quase cópia. Ora, isso torna essa fragilidade ainda mais evidente. O hino fluminense foi criado antes do catarinense e também celebra — com razão — o fim da escravidão. A diferença é decisiva: ele nomeia seu povo, convoca os fluminenses, situa o território simbólico que representa. O catarinense não faz nem isso.

Argumentos e mais argumentos têm apontado o tema “Proclamação da República”, que colocou fim ao jugo português — mas não serve, porque não é exclusividade de estado algum. Ambas tratam direta e inequivocamente sobre a Abolição — que igualmente não serve, pelas mesmas razões.

Não se trata de acusação de plágio. Mas é impossível não perceber o arremedo, as palavras idênticas e as expressões similares. Trata-se da constatação de uma proximidade excessiva de intenção, imagens e vocabulário. O resultado é um texto genérico, de algum brasileiro, não necessariamente desta ou daquela parte do país.

Com isenção e coragem, precisamos assumir que a proximidade de dois grandes acontecimentos nacionais tem servido de pano de fundo para algo que já não se sustenta:

Lei Áurea – 1888

Proclamação da República – 1889

Hino do Rio de Janeiro – 1889

Hino de Santa Catarina – 1895

Reconheço e compartilho a dor que implica tal ação no Estado que tanto amamos. Mas dor maior é ver ainda Santa Catarina sem seu glorioso Hino, sinônimo de exaltação, como deve ser. Jamais de outro assunto, mas de si e dos seus. Este valente e exemplar Estado brasileiro precisa dar um fim nesse faz de conta e legar à posteridade uma obra cantável, emocionável e justificável. Não é pedir muito.

Rever símbolos não é apagar a história, especialmente quando da efetivação desses algum descuido ensejar a devida correção. É o caso.

As consequências desse equívoco simbólico que ainda perdura são perceptíveis no cotidiano escolar e cívico. Poucos cidadãos decoram o hino. Menos ainda conseguem cantá-lo com convicção. Não por desinteresse ou desamor, mas por ausência de identificação. Pois pertencimento não se impõe por decreto.

Santa Catarina é um estado plural, diverso, economicamente vigoroso e culturalmente singular. Seu hino deveria refletir, de forma atemporal, sua realidade, exaltar suas peculiaridades, reconhecer sua gente e fortalecer o sentimento de pertencimento das novas gerações.

Por isso, conclamo:

Ao egrégio Poder Legislativo Catarinense, a acrescentar este prisma e a retomar o debate público qualificado, livre de intimidações morais; seguido das providências concernentes ao rito.

Pensemos, sem medo, na criação de uma nova obralegitimada por processo democrático e transparente. A ALESC já avançou sobremaneira. Estamos perto. Um olhar mais detido verá o óbvio.

Este tema não pode ser empurrado para debaixo do tapete.Não é uma pauta menor. É um gesto de responsabilidade histórica.

Não é por nós apenas. É pelas gerações que nos sucederão. Que possam cantar, em alto e bom som, um belo e apropriado Hino que desperte pertencimento — jamais alienação.

Joaçaba – SC, 27/12/2025

Jaime TellesAutor e pesquisador da cultura catarinense
Joaçaba – Santa Catarina

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