Voltando no Tempo: Polônio Tonini e os Irmãos Mattos em um registro marcante da história da CDL |
por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, 75 anos
A minha admiração pelo Roberto Carlos vem de quando eu tinha dez anos de idade e ouvia no rádio as melhores músicas dos discos da série “As 14 Mais”, da gravadora CBS. A coletânea, lançada entre 1960 e 1978, trazia no volume 6 a faixa título do primeiro LP do Roberto, “Louco por você”, um animado bolero em ritmo latino. Depois, Parei na contra mão, É proibido fumar, O Calhambeque — e a partir dali uma sucessão de sucessos, músicas autorais, covers e versões que se tornaram clássicas para muitas gerações.
Roberto já tinha lançado algumas músicas, sem repercussão — as quatro primeiras em estilo Bossa Nova: em 1959 João e Maria, Fora do tom; em 1960 Canção do amor nenhum, Brotinho sem juízo; e em 1962 Fim de amor, Malena, Susie, Triste e abandonado.
Outro dia algo me chamou a atenção no Facebook: “Colecionadores De Mídia Física (Vinil, K7 E CD)”. Ali, o paulistano Leandro Lima, 30 aninhos mais novo que eu, analisa, com muita propriedade, a discografia do Roberto Carlos, faixa por faixa de 38 dos LPs lançados entre 1961 e 2003. E esse meu mais novo amigo ainda se dá ao luxo de escolher a melhor de cada disco e as melhores músicas de cada década. Devidamente autorizado pelo Leandro, estou utilizando seus conhecimentos musicais para escrever esse texto.
Ele sabe que a tarefa é ingrata: “Analisar Roberto Carlos e qualquer obra que ele lançou é deveras complicado pois o peso é enorme, estamos falando de um cantor consolidado há mais de 60 anos.” E justifica: “Roberto Carlos foi o meu amigo de fé e irmão camarada num momento em que me vi sozinho em casa, com saudades da minha família. Comprei uma vitrola usada e fui explorar a sua discografia, sem querer isso foi se tornando um prazer e hoje eu ouço ao menos um disco por dia do Charles Robert”.
O primeiro álbum, “Louco Por Você”, lançado em 1961 virou raridade, nunca foi relançado. Traz muitas versões, samba, bolero, rock/twist, como Mr. Sandman, Olhando Estrelas, Se você gostou. Clarinete esperto, guitarra ritmada, orquestra com uma pegada de jazz sensacional, coralzinho interessante e backing vocals muito bem inseridos.
1963 — Roberto lançou o primeiro álbum “pra valer”, um disco bem legal cheinho de hits: Parei na contramão, Quero me casar contigo, Professor de amor, Splish Splash com versões de sucessos do Elvis e de Bobby Darin, canções próprias compostas com Erasmo Carlos e músicas de outros autores.
1964 — É Proibido Fumar. Esse aqui é só paulada da boa! Nada de orquestra, só uma molecada sentando a pua nos instrumentos. A música-título, composta pela dupla Roberto e Erasmo, tem uma estrutura melódica e arranjos tipo country/rock americano década de 1960. Tem mais: Um leão está solto nas ruas, Meu grande bem, Jura-me: metais legais e um iê iê maneiro, na onda da beatlemania. Calhambeque é um clássico, essa ele vai cantar até depois que o Senhor o chamar...
1965 — RC Canta Para a Juventude; História de um homem mau, A Garota do Baile e Não quero ver você triste, uma linda melodia levada em percussão leve, baixo, dedilhado lindo de violão e o contorno permanente do teclado, enquanto Roberto recita uma poesia bobinha, apaixonada, depois um assobio, coisa singela mesmo, com rimas simples: “Não chore nunca mais, olha o céu azul, azul até demais...”
Em 1965 foram dois álbuns! LP Jovem Guarda: Quero que vá tudo pro Inferno, com Lafayette no órgão comandando a base e os floreios da guitarra. Disco excelente: Lobo Mau é clássica e tem mais rock em Pega Ladrão. Legal demais, e no solo o sax moendo tudo; Não é papo pra mim, a guitarra na frente de tudo com belos efeitos, a banda bem afiada, desde sempre ele contratou só os melhores. E termina com fofoca, Mexericos da Candinha, irreverente, sobre uma daquelas vizinhas que amam se escorar no portão pra observar a vida alheia. Quem nunca teve uma dessas?
1966 foi o ano em que comecei a apresentar “Os Discos do Bolinha” nas rádios locais, e desde então sempre lancei, em 1ª mão, os discos anuais do Roberto, que o motorista do ônibus trazia de São Paulo. E que disco maravilhoso, capa estilo Beatles e alta qualidade musical: Eu te darei o céu, Esqueça, Namoradinha de um amigo meu, Negro gato um rock do bom, cozinha implacável e pesada! É papo firme, batida mais rápida em um country rock incrível. Teclados acertados, bom trabalho de guitarra e algumas gírias, mora, bicho?!
E chegou 1967, ano do LP “Em Ritmo de Aventura”. Leandro exalta: “Ah! esse disco. Começa com rock do bom: Eu sou terrível. Tem muito mais, tanta música boa, não dá pra pular nenhuma. Tem o filme também e a belíssima capa garante o troféu de campeão a esse disco obrigatório, perfeito, canções perfeitas, acertaram em tudo. Acho quase impossível alguém não conhecer essa obra de arte, mas caso tenham reticências com a carreira do RC, vai nesse aqui sem medo de ser feliz. Como é grande o meu amor por você é outra que fala por si, perfeita, bonita, famosa, um hino. Talvez muitos de nós fomos concebidos enquanto essa linda canção tocava...”
Eu entrevistei o Roberto duas vezes aqui em Joaçaba — em 1967, ano do Cinquentenário, perguntei sobre as músicas do novo disco e ele destacou duas: “Como é grande o meu amor por você, que é uma música lenta, romântica. Outra é uma música inspirada no estilo daquelas Fugas de Bach, o título é E por isso estou aqui”, completou o Roberto. Sobre essa, assim define o Leandro: “Uma introdução clássica, violinos enfeitam a canção que mantém uma melodia doce e simples.”
Em Por isso eu corro demais as derrapadas dos pneus são empolgantes, que canção linda! O teclado é preciso e a banda afiada. As músicas desse disco te deixam com vontade de ouvir mais e mais. De que Vale Tudo Isso é uma porrada nos tímpanos descuidados.
O outro lado do vinil abre com a música Quando. O clima que essas músicas trazem é impossível traduzir em palavras, elas são empolgantes, de um bom gosto ímpar, num contexto tão bom que creio ser o disco inabalável do Rei. Você Não Serve Pra Mim, pancada da guitarra e som na caixa, Renato Barros acertou ao compor essa! Só vou Gostar de Quem Gosta de Mim é maravilhosa! Balanceada, agradável e o teclado faz tudo ficar melhor.
1968 — O Inimitável é um dos melhores discos do Roberto, que se afastava da ingenuidade da jovem guarda e mostrava influências da “Soul Music” americana, com arranjos mais maduros e sofisticados. Destaques: Se você pensa, Eu te amo, te amo, te amo, As canções que você fez pra mim, Ciúme de você, Não há dinheiro que pague.
1969 — Registro primoroso de alguns clássicos compostos pela dupla de amigos de fé, irmãos, camaradas: As flores do jardim da nossa casa, As curvas da estrada de Santos, Sua estupidez, Oh! meu imenso amor, O diamante cor de rosa (apenas instrumental, tocada pelo próprio na harmônica, daria nome ao segundo filme do Roberto Carlos).
O espaço é pequeno para falar de tanta música boa, voltarei ao assunto...
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