por Antonio Carlos Pereira, nascido em 1950
No seu primeiro disco, lançado em 1965, a banda britânica The Who cantava uma composição de Pete Townshend, retratando uma juventude cansada e sem muita perspectiva de mudança, intitulada “My Generation”: “As pessoas tentam acabar com a gente só porque nos demos bem/ Falo da minha geração: as coisas estão chatas demais! Espero morrer antes de ficar velho... Porque vocês não desaparecem? Não fiquem aí tentando analisar tudo o que a gente diz! Falo da minha geração, não estou a fim de causar uma grande confusão, só falo da minha geração; essa é a minha geração.”
É muito estranha essa mania da humanidade em classificar tudo. Por exemplo, eu e meus contemporâneos, nascidos em meados das décadas de 1940 e 1960, somos da “Baby Boom Generation”.
Algumas nomenclaturas ajudam empresas e estudiosos a compreender e classificar valores e comportamentos de cada grupo das gerações atuantes que dividem o cenário social e o mercado de trabalho. Gerações demográficas são recortes temporais de nascimento que agrupam pessoas com vivências culturais, sociais e tecnológicas semelhantes e ajudam a entender o comportamento humano, o mercado de consumo e as dinâmicas de trabalho. É claro que, ao nascer, cada bebê não estará confinado às características compartilhadas por esse rótulo. Afinal, somos todos indivíduos “individuais”.
Mas o conceito de geração vai muito além da idade, pois descreve grupos que compartilham o mesmo tempo histórico, eventos traumáticos, inovações tecnológicas e códigos culturais. O sociólogo Karl Mannheim estabeleceu a base teórica fundamental, explicando que nascer na mesma época não basta; é preciso compartilhar vivências para formar uma "unidade de geração". Alguns sociólogos, porém, advertem que essas divisões podem carregar estereótipos geracionais semelhantes à astrologia, ignorando desigualdades estruturais de classe, raça e gênero que cruzam todas as faixas etárias.
As gerações, divididas conforme os anos de nascimento e o contexto histórico de cada época, são as seguintes:
1. Geração Grandiosa (nascidos até 1927)
Também chamada de Greatest Generation, inclui as pessoas que viveram a infância ou a juventude durante a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão (1929).
2. Geração Silenciosa (1928 – 1945)
Esse nome, cunhado pela primeira vez em um ensaio publicado em 1951 pela revista Time, refere-se à filosofia parental difundida dessa geração: que as crianças fossem “vistas, mas não ouvidas”. Essa geração tem sido frequentemente descrita como pragmática e cautelosa em suas abordagens às finanças pessoais. São as pessoas que viveram o impacto da Segunda Guerra Mundial e o pós-guerra. O nome surgiu devido ao contexto político e repressivo verificado em muitas partes do mundo, o que a levou a ser mais contida.
3. Baby Boomers (1946 – 1964)
O termo define as pessoas nascidas após o fim da Segunda Guerra Mundial, período marcado por um grande aumento nas taxas de natalidade (o "baby boom"). Os “filhos da guerra” cresceram num mundo em conflito, propaganda política, Guerra Fria, austeridade, movimentos pelos direitos civis, quebra de valores tradicionais, protagonizaram profundas revoluções culturais e de costumes nos anos 60 e 70.
A Segunda Guerra havia tirado de muitos a vivência de uma infância normal e separara famílias na Europa ocupada. Foram anos de frustração, raiva e revolta – mas havia a esperança de conquistar seus direitos no mundo, sem se sentir vigiados na maneira de falar ou dominados por qualquer um que tivesse mais idade. Foi uma revolução: milhões de adolescentes em vários lugares do mundo, através da música e da dança, reagiram pela primeira vez contra os antigos valores. Foi essa a geração que criou o movimento hippie. Pais, governos, igrejas, jornais ficaram perplexos, desorientados diante daquela atitude: “Criamos os filhos da maneira mais correta e decente, agora eles agem assim. O que saiu errado?”
Os principais marcos e características que definem essa geração incluem o contexto histórico: nascidos em uma época de otimismo pós-guerra e crescimento econômico. Seu comportamento e valores são frequentemente associados à busca por segurança financeira, carreira estável e propriedade imobiliária. No ambiente de trabalho costumam demonstrar forte lealdade às empresas e hoje muitos estão na fase da maturidade e aposentadoria, mas continuam a exercer grande poder de influência econômica, política e social no Brasil e no mundo.
Os Baby Boomers, enfim, somos nós, os que nascemos após o final da Segunda Guerra Mundial. Na infância, adolescência e começo da vida adulta fomos os primeiros a crescer tendo a televisão como o principal meio de comunicações e nela acompanhamos a guerra do Vietnã e muitos momentos históricos, o que influenciou fortemente nossa visão política. A geração baby boomer tornou-se parte substancial da população e tem impacto significativo sobre a economia, reconhecida pela valorização da estabilidade e ética de trabalho e em consequência somos, muitas vezes, o foco de campanhas de marketing e planos de negócios.
É claro que irão deduzir que estou “puxando a brasa pra minha sardinha”, mas muitos concordam que foi nessa geração que surgiram as melhores músicas, os melhores filmes.
4. Geração X (1965 – 1980)
Crescidos durante o início da revolução tecnológica, época de grandes transições políticas e econômicas. São vistos como uma geração independente, pragmática e que presenciou a transição do mundo analógico para o digital. Gente que cresceu com movimentos musicais passageiros. Alguns momentos históricos importantes que moldaram a Geração X incluem o fim da Guerra Fria e a ascensão do liberalismo econômico; é geralmente conhecida por conseguir manter um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
5. Millennials ou Geração Y (1981 – 1996)
São os primeiros a vivenciar a transição digital de forma intensa e chegaram à vida adulta por volta do ano 2000. Caracterizados por valorizar experiências e flexibilidade no ambiente de trabalho, foram os grandes impulsionadores da internet e das redes sociais. Amplamente conhecida por ter enfrentado dificuldades econômicas significativas ao longo de suas vidas, lidando tanto com a Grande Recessão no final da primeira década deste século quanto com a recessão de 2020 devido à pandemia de Covid-19. Segundo pesquisas, desde que entrou no mercado de trabalho, essa geração experimentou um crescimento econômico mais lento que as anteriores. Além das dificuldades econômicas, os millennials também são conhecidos por sua aptidão com a tecnologia, tendo testemunhado o rápido avanço do desenvolvimento tecnológico desde jovens.
6. Geração Z (1997 – 2010)
Conhecidos como "nativos digitais", a primeira geração que nasceu ou cresceu com a internet, smartphones e redes sociais amplamente disseminados. São considerados mais pragmáticos, focados em diversidade e exigem maior responsabilidade social e ambiental das empresas e a relação com a tecnologia é o que a diferencia das outras gerações. Também é conhecida por sua consciência geral sobre justiça social e questões políticas. Conheceram o mundo antes das redes sociais, mas percebem como elas podem ser úteis, enquanto as gerações anteriores são mais avessas a isso e a seguinte, a Geração Alfa, é formada por crianças que usam e abusam das “telinhas” e não gostam muito de ler.
7. Geração Alfa (2011 – 2025)
Compreende as crianças nascidas a partir de 2011. São filhos, em grande parte, dos Millennials. Nascidos em um mundo hiperconectado e dominado por Inteligência Artificial (IA), telas sensíveis ao toque e algoritmos, são mais focados no ensino imersivo e tecnológico, em um mundo totalmente integrado à tecnologia, às redes sociais e à conectividade global. A Geração Z tende a criticar a dependência da Geração Alfa em relação às telas. Como resultado, dizem os críticos da Geração Z que aqueles desenvolveram comportamentos indesejáveis e até mesmo estranhos, prejudiciais à saúde. O crescente acesso das crianças à tecnologia levou especialistas a chamar a Geração Alfa de "geração ansiosa".
(Observação: Acadêmicos e especialistas já começam a discutir a Geração Beta, formada por pessoas nascidas a partir de 2025, que nascem em um cenário onde a IA generativa e a imersão digital são a norma).
Geração Beta (a partir de 2025)
A Geração Beta será geralmente composta pelos filhos da Geração Z que nascerem a partir de 1º de janeiro de 2025. As datas de início e fim das gerações podem ser imprecisas, mas a Geração Beta será assim conhecida até “inventarem” a necessidade de mais classificações. A Geração Beta pode não ter vivenciado o fechamento das escolas e o isolamento social da Covid, mas suas famílias e seus irmãos foram irremediavelmente impactados por isso e a Geração Beta provavelmente estará imersa em dispositivos inteligentes e inteligência artificial e provavelmente crescerá com a mudança climática como uma realidade alarmante, com consequências mais diretas em suas vidas.
No entanto, por mais que sociólogos, historiadores e empresas insistam em rotular comportamentos coletivos, nenhuma geração consegue explicar plenamente a riqueza e a singularidade de cada ser humano. Em todas elas existiram sonhadores e conservadores, rebeldes e conformistas, apaixonados por tecnologia e amantes do passado. O tempo muda os costumes, as ferramentas e a maneira de se comunicar, mas certas necessidades permanecem eternamente humanas: o desejo de amar, pertencer, construir um futuro melhor e deixar alguma marca no mundo. Talvez seja justamente isso que una todas as gerações — a eterna tentativa de compreender o seu tempo sem perder a essência da condição humana.
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