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O TEMPO DE FATO

O FÓSFORO E O FOGO!

por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira

O fogo simboliza primariamente a vida, a paixão, a transformação e a energia vital. Com natureza ambivalente, ele carrega tanto o poder construtivo de iluminar, aquecer e purificar quanto o aspecto destrutivo capaz de consumir e renovar. Em diversas religiões o fogo simboliza a presença de Deus — como na sarça ardente ou em Pentecostes — e a purificação do espírito.

Acender fogo por fricção, uma técnica ancestral de sobrevivência, gera calor através do atrito mecânico entre duas peças de madeira até criar uma brasa incandescente, a qual é transferida para um "ninho" ou “isca” de fibras vegetais secas, capim, palha, algodão ou paina para produzir chamas.

Antigamente, lá nas décadas de 1930 e 40, no então Distrito de Herval d'Oeste, a Fábrica de Fósforos das Indústrias Tranquillo de Carli trabalhava de forma precária, pois naquela época não existia energia elétrica e todo o processo era feito através de correias e mancais. A revelação está no livro “A ponte e o rio”, escrito por Flávio de Carli, filho de Tranquillo de Carli, e o detalhe interessante é que o industrial pioneiro usava a criatividade fazendo concorrência a si mesmo, ao criar diversas embalagens e diferentes nomes fantasia, como se fossem diversas marcas competindo entre si, como nos mostra o trabalho realizado pelo nosso amigo hervalense Evandro Cesar, de saudosa memória, que restaurou os rótulos que ilustram essa matéria.

Enquanto escrevo, surgem algumas curiosidades, como a dúvida que pode deixar sua cabeça “pegando fogo”: o fósforo está na caixinha ou no palito? Estamos acostumados a ouvir a expressão “palito de fósforo”, e foi justamente ela a culpada pela ideia errônea de que, na pontinha pintada na ponta dos recortes de madeira, haveria fósforo.

Pesquisando, descobri que o elemento fósforo não está presente nos palitos que encontramos dentro da caixinha e sim do lado de fora. A superfície onde riscamos o palito parece uma lixa. O atrito é provocado pela presença do vidro, é ele quem aciona a reação de combustão entre os componentes.

O elemento químico fósforo está localizado na lateral da caixinha, especificamente na lixa (superfície de atrito). A lixa contém fósforo vermelho, dextrina, trissulfeto de antimônio e vidro moído. A cabeça do palito contém substâncias como enxofre, clorato de potássio (agente oxidante) e cola, mas não possui fósforo. A caixa de fósforo padrão mede aproximadamente 5 cm de comprimento, 3,5 cm de largura e 1 cm de altura, enquanto cada palito tem em média 4 cm.

Quando se risca o palito na lateral, o atrito gera calor que transforma uma pequena quantidade de fósforo vermelho em fósforo branco, iniciando a chama que acende a cabeça do palito. Mas então por que puseram o nome palito de fósforo? Porque durante muito tempo o fósforo realmente estava no palito e acendia em qualquer superfície áspera, como nos velhos filmes de faroeste. Na verdade, esse tipo de palito ainda existe em alguns países.

A evolução da invenção passou por etapas importantes até chegar ao modelo atual, pois era necessário “domesticar” a técnica de acender o fogo. Foi em 1669 que um alquimista alemão, chamado Henning Brandt, descobriu acidentalmente o elemento químico batizado de fósforo (do grego phos, luz, mais phoros, transportador), ao tentar obter ouro a partir de urina. A descoberta chegou ao conhecimento do físico inglês Robert Boyle, que onze anos depois criou uma folha de papel áspero com a presença de fósforo, tendo em uma das pontas uma varinha com enxofre (elemento que se incendeia com facilidade). O calor causado pela fricção do palito com a superfície áspera faz o fósforo liberar faíscas, incendiando o enxofre.

O primeiro palito de fósforo de fricção foi inventado acidentalmente depois de mais de um século e os palitos de fósforo começaram a se popularizar. Devemos ao farmacêutico inglês John Walker a invenção do primeiro palito de fricção: em 1826 ele criou um palito de madeira cuja ponta continha uma mistura de sulfeto de antimônio, clorato de potássio, cola e amido, que acendia ao ser raspado em uma superfície áspera. O inconveniente era que eles costumavam incendiar-se sozinhos dentro da embalagem.

Esse problema seria resolvido somente em 1855, quando o industrial sueco Johan Edvard Lundström inventou o “fósforo de segurança”, recoberto com um agente isolante para não pegar fogo à toa — ele separou as substâncias entre a cabeça do palito (clorato de potássio) e a lixa da caixa (fósforo vermelho) — evitando que o palito acendesse de forma espontânea. No Brasil, o produto só passou a ser fabricado no início do século XX, pela Fiat Lux.

Além das formas de descarte tradicionais, o palito de fósforo usado pode se tornar um fertilizante para a horta, pois tanto o sulfureto de fósforo e clorato de potássio presentes na cabeça do fósforo se transformam em boas fontes de fertilizantes inorgânicos quando compostados.

Dito isso, confira os principais fabricantes e marcas de fósforos que atuam no Brasil atualmente:

Fiat Lux (pertencente ao grupo sueco Swedish Match, com fábrica histórica no bairro Rebouças, em Curitiba-PR, e produção de marcas tradicionais como Pinheiro, Olho, Moça e Beijaflor)

FoBras (Fosforeira Brasileira Ltda.) (sediada em Irati-PR, líder de mercado com as linhas de Fósforos Paraná e Produtos Paraná)

Grupo Gaboardi (sediado em São Cristóvão do Sul, Santa Catarina, tradicional fabricante de fósforos de segurança e artigos de madeira)

Indústria de Fósforos Catarinense Ltda. (destacada entre as maiores empresas do setor no país)

Fósforo Argos (responsável por marcas como Fósforos Argos e Guarany)

O fósforo, esse pequeno e indispensável objeto que tantas vezes passa despercebido em nosso cotidiano, representa uma das grandes conquistas da humanidade: a possibilidade de produzir fogo com rapidez, simplicidade e segurança. Quem diria que, por trás de uma caixinha tão comum, existiria uma história de descobertas científicas, experiências curiosas, criatividade industrial e transformação dos costumes? Das antigas técnicas de fricção da madeira às modernas fábricas, o ser humano foi aprendendo a dominar o fogo, tornando-o um aliado na preparação dos alimentos, no aquecimento dos lares e na iluminação dos ambientes. E, aqui em nossa região, a lembrança da antiga fábrica de fósforos acrescenta a essa história um capítulo de pioneirismo, trabalho e empreendedorismo que merece ser preservado na memória de Herval d’Oeste.

Talvez seja por isso que o fósforo nos ensine algo que vai muito além da química: uma pequena centelha pode provocar uma grande transformação! Assim também acontece em nossas vidas, quando um gesto de carinho aquece um coração, uma boa ideia ilumina novos caminhos ou uma atitude de coragem dá início a grandes realizações. Mas, assim como o fogo exige cuidado para não se tornar destruição, nossas palavras e ações precisam ser conduzidas com responsabilidade e sabedoria. Afinal, entre o palito e a chama existe apenas um instante; entre uma ideia e uma conquista, muitas vezes, basta o primeiro passo. E uma palavra pesada, dita em momento errado, pode provocar grandes “incêndios”.

E você, depois de conhecer um pouco mais sobre essa invenção tão antiga e tão presente em nosso dia a dia, vai continuar olhando para uma simples caixinha de fósforos da mesma maneira?


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