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JORNAL O TEMPO

PEDRO ORTAÇA - ARAUTO DA CULTURA MISSIONEIRA

Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos (Jornalista (MT/SC 4155)

         Preliminarmente, a história cultural do Rio Grande do Sul encontra na região das Missões uma de suas expressões mais autênticas e significativas. Terra de memória, resistência, espiritualidade e tradições, o território missioneiro preserva uma herança construída pelo encontro de povos, especialmente pela presença guarani e pela experiência histórica das reduções jesuíticas. Nesse universo de valores e sentimentos, destaca-se Pedro Ortaça, cantor, compositor e violonista que dedicou sua existência à valorização da identidade missioneira, transformando em versos e melodias a história, os costumes, as inquietações e as esperanças de sua gente.

Pedro Marques Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942, na localidade de Pontão de Santa Maria, interior de São Luiz Gonzaga, município que integra a histórica região dos Sete Povos das Missões. Descendente de guaranis, cresceu em ambiente rural, convivendo com as atividades campeiras, as manifestações populares e a musicalidade transmitida entre gerações. Desde a infância, encontrou na música uma forma espontânea de expressão, influenciado pelo ambiente familiar, pelos cantadores populares e pelas reuniões festivas que animavam as comunidades do interior. A simplicidade de suas origens tornou-se uma das principais características de sua personalidade artística.

De outro lado, sua formação musical ocorreu principalmente pela observação, pela convivência com músicos populares e pela experiência cotidiana. Mais do que aprender acordes e melodias, Pedro Ortaça assimilou uma maneira particular de compreender o mundo, marcada pelo respeito à natureza, pelo sentimento de pertencimento à terra e pela valorização da sabedoria popular. Essa vivência permitiu que desenvolvesse um estilo próprio, profundamente identificado com a alma missioneira, sem perder a dimensão universal dos sentimentos humanos presentes em suas composições.

Destarte, ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, Pedro Ortaça integrou o grupo de artistas que ficou conhecido como os Quatro Troncos Missioneiros. Unidos pela amizade, pela afinidade cultural e pelo compromisso com as raízes regionais, esses intérpretes contribuíram decisivamente para consolidar uma linguagem artística própria dentro da música nativista gaúcha. Cada um, com suas particularidades, participou da construção de um movimento que ultrapassou os limites do entretenimento e assumiu uma dimensão histórica, social e cultural.

A música missioneira, mormente por intermédio desses artistas, tornou-se instrumento de afirmação da identidade regional. Suas composições passaram a abordar não apenas as belezas naturais, os costumes campeiros e as tradições populares, mas também as injustiças sociais, a dignidade do trabalhador, a memória indígena e os acontecimentos que marcaram a formação histórica das Missões. Nesse contexto, Pedro Ortaça destacou-se pela interpretação vigorosa, pela autenticidade de sua voz e pela capacidade de traduzir sentimentos coletivos em linguagem musical acessível e profundamente emotiva.

Seu repertório constitui verdadeiro patrimônio cultural. Canções como “Timbre de Galo”, “Bailanta do Tibúrcio”, “Pampa Livre” e “A Volta do Sorro Manso” revelam diferentes aspectos de sua sensibilidade artística. Em algumas, sobressaem o humor, a alegria e a espontaneidade das reuniões populares; em outras, manifestam-se a reflexão, o apego à liberdade e o compromisso com as tradições. Essa diversidade demonstra que a cultura missioneira não se limita à evocação nostálgica do passado, mas representa uma expressão viva, dinâmica e permanentemente renovada.

Outrossim, a obra de Pedro Ortaça merece reconhecimento por preservar elementos da memória coletiva que dificilmente encontrariam espaço nos registros históricos convencionais. Personagens anônimos, situações da vida rural, acontecimentos comunitários e modos de falar característicos da região ganharam permanência por meio de suas canções. O artista transformou experiências aparentemente simples em manifestações culturais de grande significado, demonstrando que a verdadeira riqueza de um povo reside também em seus costumes, em suas lembranças e em suas formas de expressão.

Outro aspecto fundamental de sua trajetória foi a defesa da herança guarani. A história missioneira, muitas vezes apresentada apenas sob a perspectiva das construções religiosas e da organização das antigas reduções, encontrou em sua música uma abordagem mais próxima dos sentimentos e das experiências humanas. Pedro Ortaça contribuiu para manter presente a memória dos povos originários e de sua participação decisiva na formação social e cultural do território. Sua arte reafirmou a importância de reconhecer essa ancestralidade como elemento constitutivo da identidade regional.

Ao longo de várias décadas de atividade, conquistou respeito e admiração de diferentes gerações. Sua presença em festivais, apresentações culturais, encontros tradicionalistas e eventos comemorativos ajudou a difundir a música missioneira por diversas regiões do Brasil. Sem abandonar a simplicidade que caracterizou sua vida, tornou-se referência para músicos, pesquisadores, poetas e admiradores da cultura regional. Sua trajetória demonstrou que a fidelidade às origens não constitui obstáculo ao reconhecimento artístico, mas pode representar justamente a razão de sua permanência.

O reconhecimento público de sua contribuição manifestou-se por meio de diversas homenagens e distinções. Entre elas, destaca-se a escolha como patrono dos Festejos Farroupilhas de 2024, acontecimento de grande significado para o tradicionalismo gaúcho. A homenagem representou não apenas o reconhecimento individual de um artista consagrado, mas também a valorização de toda uma tradição cultural vinculada às Missões. Em 2025, recebeu ainda os títulos de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Santa Maria e da Universidade Federal do Pampa, evidenciando a importância de sua produção artística para a preservação da memória e do patrimônio cultural.

Todavia, Essas distinções demonstram que o conhecimento e a contribuição à sociedade não se restringem aos espaços acadêmicos. A cultura popular, transmitida pela oralidade, pela música e pela convivência comunitária, constitui uma fonte legítima de saber. Pedro Ortaça foi exemplo dessa tradição, pois sua formação ocorreu essencialmente na experiência de vida, no contato com o povo e na observação sensível da realidade. Sua produção artística tornou-se, assim, uma forma de educação cultural, capaz de aproximar diferentes gerações de suas raízes históricas.

O falecimento de Pedro Ortaça, ocorrido em 29 de maio de 2026, aos 83 anos, encerrou uma trajetória humana e artística de extraordinária relevância. Sua partida representou uma perda significativa para a música regional e para todos aqueles que reconhecem na cultura missioneira uma das expressões mais singulares da identidade sul-rio-grandense. Como último representante vivo dos Quatro Troncos Missioneiros, sua morte também simbolizou o encerramento de um ciclo histórico protagonizado por artistas que fizeram da música um compromisso com a memória e a dignidade de seu povo.

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Entretanto, a verídica dimensão de um artista não se encerra com sua existência física. Sua permanência encontra-se na capacidade de emocionar, ensinar e inspirar aqueles que recebem sua obra como herança. As composições de Pedro Ortaça continuarão presentes nos encontros familiares, nos palcos, nas escolas, nos centros culturais e nas manifestações tradicionalistas, assegurando que novas gerações tenham contato com os valores e as experiências que caracterizam a região missioneira.

Por conseguinte, preservar seu legado significa muito mais do que recordar suas músicas. Representa reconhecer a importância da cultura popular como fundamento da identidade coletiva, incentivar a transmissão dos saberes tradicionais e compreender que a memória de um povo necessita ser constantemente cultivada. Nesse sentido, a obra de Pedro Ortaça permanece como testemunho de uma época e, simultaneamente, como inspiração para o futuro.

Pedro Ortaça foi, acima de tudo, um intérprete de sua terra e de sua gente. Cantou o cotidiano, a história, a liberdade, as alegrias e as dificuldades de um povo que encontrou na música uma maneira de perpetuar sua existência cultural. Sua voz ultrapassou fronteiras geográficas e temporais, convertendo experiências particulares em sentimentos compartilhados. Por isso, sua trajetória merece ocupar lugar de destaque na história cultural do Rio Grande do Sul.

Em epítome, ao reverenciar sua memória, reverencia-se também a contribuição dos povos missioneiros para a formação da identidade gaúcha. Pedro Ortaça permanece como símbolo de autenticidade, resistência cultural e fidelidade às origens. Sua vida demonstrou que cantar é também preservar, ensinar e testemunhar a história.

Por final,  enquanto suas melodias encontrarem abrigo na memória e no coração das novas gerações, continuará vivo o legado daquele que, com justiça, pode ser reconhecido como verídico arauto da cultura missi


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