logo RCN
O TEMPO DE FATO

ADONIRAN BARBOSA, O CRONISTA DO COTIDIANO

por Antonio Carlos “Bolinha” Pereira

“Se o sinhô não tá lembrado, dá licença de contá...” A mistura perfeita do linguajar caipira com o sotaque “italianado” dos paulistanos foi a maneira que Adoniran Barbosa e os rapazes do conjunto Demônios da Garoa encontraram para registrar uma obra musical que figura em todas as antologias dedicadas à boa música popular brasileira.

Bom humor e muito talento são pontos em comum entre Adoniran Barbosa e os componentes do grupo vocal/instrumental Demônios da Garoa, feitos um para o outro. Uma das melhores uniões compositor/intérprete, assim como Noel Rosa encontrara em Aracy de Almeida a sua melhor voz, ou Lupicínio Rodrigues e Jamelão, Adelino Moreira e Nelson Gonçalves, algo raro.

De origem humilde, João Rubinato “adotou” o nome Adoniran Barbosa pois tinha o sonho de tornar-se artista. Ele ganhou notoriedade interpretando tipos populares como humorista, ator de cinema e TV, cantor, compositor. Alcançou sucesso na Rádio Record no programa “História das Malocas”, do roteirista Osvaldo Moles, ao criar personagens típicos das ruas da periferia paulistana, como “Charutinho”, um sujeito que não gostava de trabalhar e usava a fala na contramão da norma culta, o que Adoniran adotou como característica.

Os Demônios da Garoa, formado em 1943 na capital paulista, teve o reconhecimento em 1994 como "Conjunto vocal mais antigo do Brasil em atividade", no “Guinness Book - Livro dos Recordes Brasileiro”. Seus membros extraíram influências de uma variedade de fontes culturais para construir as próprias características.

Sua história musical cresceu quando conheceram Adoniran Barbosa e alcançaram enorme sucesso em 1955, ao gravar com novo arranjo “Saudosa maloca”, samba que o próprio autor havia lançado sem repercussão: diretores da gravadora tinham detestado os “erros de português” da letra e dispensado Adoniran, pois a gravação encalhara nas lojas.

Mas nem tudo foi fácil; as gravadoras nem queriam lançar as gravações, por causa dos “erros gramaticais” das letras escritas por Adoniran, alegando ser uma vergonha para a música brasileira. E viram com espanto o enorme sucesso do disco de 78 rpm (rotações por minuto) que trazia de um lado “Saudosa maloca” e do outro “Samba do Arnesto”.

Os rapazes do grupo passaram a interpretar as suas músicas adotando um estilo inconfundível. Com criatividade e irreverência, cantam “quais qualigundum”, e outras expressões que aprenderam ouvindo os engraxates da Praça da Sé, que queriam falar difícil mas não conseguiam disfarçar os erros de concordância e pronúncia. Ao misturar o modo de falar do paulista com o italiano e o sotaque caipira, descobriu a fórmula do sucesso, pois é assim que o povo fala. Mas advertia: “pra falar errado, é necessário saber falar errado”.

A consagração definitiva do compositor e do grupo vocal aconteceu em 1964, ao conquistarem o primeiro prêmio de músicas de carnaval no IV Centenário do Rio de Janeiro. Um samba paulista, justo na terra do melhor carnaval do mundo! E que samba! Trem das Onze, seu maior sucesso, que se transformou em clássico da nossa música, e pelo tom de despedida passou a ser a música ideal para encerrar os shows de Adoniran e de qualquer artista ou roda de samba “Não posso ficar nem mais um minuto com você; sinto muito amor, mas não pode ser...”

Em abril de 1967, por ocasião do Cinquentenário do Município, os Demônios da Garoa estiveram em Joaçaba para uma apresentação. Fui conversar com eles no antigo Hotel Alabama, que os hospedava: Antonio Gomes Neto (Toninho, violão tenor), Arnaldo Rosa (voz), Claudio Rosa (voz), Roberto Barbosa “Canhotinho” (cavaquinho), Ventura Ramirez (violão sete cordas).

Nas minhas lembranças como radialista guardo com carinho aquele dia quando fiz com eles a primeira entrevista para “Os Discos do Bolinha”, que eu apresentava na Rádio Herval d’Oeste desde outubro do ano anterior. Enquanto conversávamos, Arnaldo Rosa fez e me entregou o desenho de um guri usando calças curtas e falando em um microfone, com a dedicatória: “Ao Meu Amigo Bolinha, Abraços – Arnaldo / Demônios da Garoa, 30-4-67”.

Em maio de 1994 o grupo retornou a Joaçaba, para as comemorações dos 63 anos do Clube Dez de Maio com Arnaldo Rosa (vocal e afoxé), Toninho Gomes (violão tenor), Serginho Rosa (pandeiro), Sydnei Thomassi (Simbad, violão seis cordas), Ivan Pires (violão e cavaquinho) e Oswaldinho da Cuíca. Para surpresa dos músicos, mostrei aquele desenho feito vinte e sete anos antes e entreguei ao Arnaldo uma cópia da entrevista. Esse encontro foi registrado pelo fotógrafo Luciano Comin e testemunhado pelas amigas Maria Luiza Lecher e Inês Valdemarca, que publicou em sua coluna no jornal “O Vale” de 03/06/1994.

A partir de 1974 Adoniran gravou seus únicos três LPs, e o último, em 1980, além da maravilhosa capa criada por Elifas Andreato, trouxe algumas de suas obras-primas, como “Vila Esperança”, “Prova de Carinho” e um dueto com Elis Regina, “Tiro ao Álvaro“, que alcançou enorme sucesso. Mais do que os erros propositais, as rimas inusitadas e a simplicidade das melodias agradaram.

"Olha nós aqui outra vez" é uma brincadeira fonética no estilo do Adoniran, mas a marchinha, composta por Geraldo Blota e Joseval Peixoto, foi gravada pelos Demônios da Garoa: “Se você pensa que nóis fomos embora, nóis enganemos vocês. Fingimos que fomos e vortemos: ói nóis aqui traveis. Nóis tava indo, tava quase lá; se arrependemos, vortemos pra cá. Agora nóis vai ficá fregueis: ói nóis aqui traveis.”

Homem simples, Adoniran tinha opiniões firmes: “Antes, as músicas eram bem-feitas, agora qualquer uma tem valor”. E disse mais, no final da década de 1960: “Tem que existir censura, sim, senão abusam muito. Tem gente que faz cada uma que não dá pra encarar, é pornografia pura... Eu acho que a censura tem que agir com inteligência, ela é boa para frear um pouco, senão é fogo!”

O que Adoniran Barbosa fez foi muito mais do que simplesmente escrever sambas com palavras “erradas”. Ele transformou a fala das ruas em poesia, deu voz aos personagens anônimos de São Paulo e registrou, com humor e ternura, um jeito de viver que poderia facilmente desaparecer com o passar do tempo. Ao lado dos Demônios da Garoa, criou uma sonoridade que permanece reconhecível desde os primeiros acordes. Seus sambas são retratos de uma cidade, seus bairros, personagens e, sobretudo, de seu povo.

E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, ainda nos emocionamos quando ouvimos Saudosa Maloca, Samba do Arnesto ou Trem das Onze. São canções que atravessaram gerações sem perder a espontaneidade e a graça ao falar de sentimentos que continuam presentes na vida de todos nós: saudade, amizade, amor, despedida e esperança. Adoniran partiu, mas sua voz permanece nas ruas de São Paulo, nas rodas de samba e na memória de quem aprendeu que até um “erro de português” pode virar uma obra-prima quando nasce da alma e do talento de um verdadeiro artista.

Veja o desenho e as fotos em meu blog: www.osdiscosdobolinha.blogspot.com


O TEMPO jornal de fato desde 1989: 

https://chat.whatsapp.com/IENksRuv8qeLrmSgDRT5lQ

https://www.facebook.com/aldo.azevedo.5/

https://www.facebook.com/otempojornaldefato/

O Tempo de fato (@otempofato) - Instagram

https://www.youtube.com/@otempojornaldefato

ADONIRAN BARBOSA, O CRONISTA DO COTIDIANO Anterior

ADONIRAN BARBOSA, O CRONISTA DO COTIDIANO

Jornada do Influenciador Meio-Oeste alcança índice de excelência e destaca forte satisfação das CDLs com os resultados Próximo

Jornada do Influenciador Meio-Oeste alcança índice de excelência e destaca forte satisfação das CDLs com os resultados

Deixe seu comentário