31 anos de uma história que nasceu em Capinzal e ganhou o mundo |
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)
Em preliminar, o Brasil, mormente o Rio Grande do Sul perdeu, no dia 2 de agosto de 2026, uma de suas vozes mais autênticas. Aos 86 anos, morreu em Porto Alegre Euclides Fagundes Filho, o Bagre Fagundes, cantor, compositor, instrumentista e folclorista que fez da preservação da cultura gaúcha uma missão de vida. Sua partida encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à música regional, mas não silencia o canto que ajudou a espalhar pelo Brasil e pelo mundo.
De outro vértice, nascido em Uruguaiana, em 3 de outubro de 1939, Bagre passou a infância e boa parte da juventude em Alegrete, cidade com a qual estabeleceu uma ligação profunda. Foi nas margens do Rio Ibirapuitã, nas ruas, nos campos e nas histórias daquela região que encontrou a matéria-prima de sua obra. Embora uruguaianense de nascimento, tornou-se alegretense por formação e sentimento. Alegrete não era apenas uma referência geográfica para ele, mas uma forma de enxergar o mundo e de reconhecer as próprias raízes.
Ademais, a alcunha que o acompanharia durante toda a vida nasceu ainda na juventude. Segundo os registros sobre sua trajetória, foi dado pelo irmão João Batista depois que Euclides pescou um grande jundiá no Rio Ibirapuitã. O nome Bagre acabou se sobrepondo ao nome de batismo e passou a identificar não apenas o artista, mas também uma personalidade marcada pela simplicidade, pela espontaneidade e pelo jeito campeiro de contar histórias.
No entanto, o seu contato com a música começou cedo. Ainda adolescente, apresentou-se em programas da Rádio Cultura de São Borja e adquiriu do irmão Aldo uma pequena gaita de quatro baixos e dez teclas. Aquele instrumento modesto se tornaria um companheiro permanente. Com ele, Bagre começou a construir melodias que expressavam o cotidiano do povo da fronteira, os costumes do campo, o vínculo com a terra e o sentimento de pertencimento que caracteriza a cultura gaúcha.
Todavia, a vida de Bagre Fagundes nunca esteve restrita aos palcos. Trabalhou como bancário, exerceu a advocacia e participou ativamente da vida pública. Foi presidente do Sindicato dos Bancários de Alegrete, participou da Campanha da Legalidade e, posteriormente, foi eleito vereador. Formou-se em Direito pela Universidade de Cruz Alta em 1974. Sua atuação profissional e política revela um homem atento às questões sociais e profundamente comprometido com a comunidade à qual pertencia.
Contudo, a música permaneceu como o fio que atravessou toda a sua existência. Em 1975, participou da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana integrando o grupo Os Angüeras. Mais tarde, em 1980, criou o grupo Inhanduy, ao lado de integrantes da família, incluindo os filhos Neto e Ernesto Fagundes. O conjunto conquistou reconhecimento em importantes festivais nativistas do Rio Grande do Sul, contribuindo para consolidar a presença da família Fagundes no cenário musical.
A par disso, foi ao lado do irmão Antônio Augusto Fagundes, o Nico Fagundes, que Bagre criou sua obra mais conhecida: “Canto Alegretense”. Apresentada no início da década de 1980, a composição nasceu de uma pergunta aparentemente simples: “Não me perguntes onde fica o Alegrete”. A resposta transformou-se em uma declaração de amor à cidade e, com o tempo, em um dos maiores símbolos musicais do Rio Grande do Sul.
Outrossim, mais do que indicar onde se encontra Alegrete, a canção apresenta uma geografia afetiva. Nela, a cidade não é definida apenas por estradas, rios ou coordenadas, mas pelo sentimento de quem conhece e ama aquele lugar. “Canto Alegretense” ultrapassou as fronteiras municipais e estaduais, recebeu diferentes interpretações e ganhou espaço em festivais, encontros tradicionalistas, estádios, programas de televisão e apresentações internacionais. A canção chegou a ser executada no Museu do Louvre, em Paris, demonstrando que a identidade regional pode alcançar dimensão universal quando é expressa com verdade.
Bagre compreendia a tradição como algo vivo. Para ele, preservar a cultura gaúcha não significava aprisioná-la no passado, mas transmiti-la às novas gerações. Essa compreensão tornou-se evidente na convivência artística com os filhos Neto, Ernesto e Paulinho Fagundes e na formação do grupo Os Fagundes. Ao reunir diferentes gerações da mesma família, o conjunto transformou o ambiente doméstico, os costumes e as memórias familiares em uma expressão coletiva da cultura regional.
A família ocupava um lugar central em sua vida. Casado com Marlene Vilaverde desde 1962, Bagre foi pai de quatro filhos e construiu um legado que ultrapassa sua produção individual. Os filhos deram continuidade ao trabalho iniciado por ele e contribuíram para renovar a música gaúcha sem perder o respeito pelas origens. Dessa maneira, a herança de Bagre permanece não somente nas gravações e composições, mas também na trajetória artística de sua família.
Como folclorista e contador de histórias, soube registrar os tipos humanos, a linguagem e as experiências do povo do Sul. Suas apresentações possuíam a naturalidade de uma conversa ao redor do fogo de chão. Entre uma música e outra, surgiam causos, lembranças e observações bem-humoradas. Era justamente essa proximidade que fazia com que o público não enxergasse nele apenas um artista, mas alguém que parecia pertencer à família de cada ouvinte.
Destartte, a sua morte provocou manifestações de pesar entre familiares, artistas, autoridades e admiradores da música regional. As homenagens demonstraram que Bagre ocupava um espaço singular na memória cultural do Rio Grande do Sul. Não era lembrado somente como autor de uma canção consagrada, mas como um dos responsáveis por dar continuidade, visibilidade e dignidade à expressão musical do povo gaúcho.
Em epítome, morre o homem, permanece o canto. E, no caso de Bagre, permanece também a certeza de que a verdadeira querência não se limita ao lugar onde se nasce ou se vive. Ela sobrevive na memória, na família, na música e no sentimento daqueles que aprenderam a reconhecer o Rio Grande por meio de sua voz.
Por final, Bagre Fagundes parte deixando um legado que o tempo não apagará, porquanto já está incorporado à história e à cultura gaúcha e brasileira.
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