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A importância da dúvida

Evandro Ricardo Guindani

Desde a infância sempre tive bastante curiosidade sobre tudo, o que é normal de toda criança. Segundo o filósofo Hugo Assmann (no seu livro Curiosidade e Prazer de Aprender), a curiosidade gera a dúvida, e esta é condição indispensável para a aprendizagem. Só aprende quem está com dúvida...

Você lembra daquelas situações em que você decorava para estudar para a prova? E depois esquecia tudo? Então, aquilo que você decorou não foi aprendizagem porque você não estava curioso, interessado em aprender...

Você só estudou porque o professor pediu e cobrou... Meu grande desafio de todas as aulas que dou é gerar curiosidade no aluno... E digo a vocês, é a tarefa mais difícil do professor...

Bem, falo isso tudo porque desde pequeno eu ouvia falar de (D)deus... Porque ele era bom, porque tinha criado o mundo, porque seu filho tinha morto, ressuscitado e vive entre nós...

Essas coisas me inquietavam porque eu nunca tinha visto nenhum deles, nem o pai (D)deus e nem o filho (Jesus)... Na catequese eu ouvia aquelas coisas todas e sempre saía com uma dúvida na cabeça (será que é verdade?)...

Quando eu tinha uns 13 anos lembro que vieram até nossa comunidade os chamados Missionários, aqueles que usam barba e uma túnica marrom, os franciscanos...

E numa missa ao ouvir a pregação fervorosa de um deles sobre a morte e ressurreição de Jesus, ele contando detalhes de quem estava lá na cruz e quem viu o tal Jesus depois de morto... Me perguntei: mas como ele fala isso com tanta certeza? E aí comecei a vivenciar uma crise de fé, não conseguia mais assistir a missa, me dava uma angústia tão grande porque eu duvidava de tudo aquilo...

Contei para alguns colegas e eles me disseram que era o capeta me tentando... Fiquei assustado! E agora José? Como faço pra tirar esse capeta de meu cérebro?

Na nossa cultura, a dúvida, a curiosidade, o questionamento sempre estiveram associados ao demônio...

A palavra demônio/diabo significa "dividir"... A dúvida divide opiniões, divide o pensamento, nos tira a paz, o conforto.. A crença passiva por outro lado nos conforta, nos une... Não é lindo ver uma família toda sentada no mesmo banco da Igreja assistindo a missa? Uma família toda rezando o terço ao redor da imagem de Nossa Senhora?

A dúvida é algo visto como negativo porque ela está etimologicamente (na raíz da palavra) associada ao demônio... Esse é um dos motivos que levam os pais a dizerem aos filhos para acreditarem e ficarem quietos. Por que? Porque é mais fácil do que explicar... Porque se for começar a explicar vai gerar dúvidas, vai tirar a paz e a tranquilidade... Já ouviu aquela expressão: "quando era ignorante eu era mais feliz" ? "Era melhor eu nem ter sabido disso".. A ignorância acalma, alivia, apazigua, une as pessoas...

A verdade dói... A dúvida é como o sol (para os gregos o sol significa conhecimento) que você olha ao sair da caverna da escuridão...

Façam um exercício: Vá ao google imagens e digite a frase: "dúvida sobre Deus" e veja a infinidade de frases que associam a dúvida como algo oposto a (D)deus.

Em síntese, você pode sim ter sua crença, sua prática religiosa mas sempre é necessário uma pitada de dúvida, do contrário você perde sua humanidade, perde sua capacidade de refletir, de crescer e de conhecer... E nossas crianças que apenas recebem certezas podem se tornar preconceituosas, discriminarem aqueles que pensam diferente dela...

Cuidado! A certeza pode te fechar, te tornar arrogante... A dúvida pode te tornar aberto e mais humilde!


Um grande abraço!

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Evandro Ricardo Guindani

Evandro é natural de Vargem Bonita - SC, graduado em Filosofia, Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Educação. Atualmente é Professor da Universidade Federal do Pampa em São Borja-RS


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