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A CONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA NA POLÍTICA E NA RELIGIÃO

Evandro Ricardo Guindani

A CONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA NA POLÍTICA E NA RELIGIÃO
Evandro Ricardo Guindani


Vivenciamos nos últimos tempos muitos recorrem às comunidades indígenas, quilombolas, assentamentos bem como um aumento da violência contra a mulher

Estes fatos possuem uma causa muito mais profunda, estão relacionados a um discurso que constrói o ato violento ...

Nos estudos da Ética aprendemos que para justificar um ato violento é preciso desumanizar a vítima. Quando afirmamos: "ele é um monstro", "ele (a) não é gente, mas um animal", estamos na verdade tirando a humanidade da pessoa e consequentemente nos permitindo agredir e matar ...

O filósofo Aristóteles na Grécia antiga dizia por exemplo que os escravos nascem para serem escravizados ...

Vou citar aqui outras frases como essa:

"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais" (Jair Bolsonaro em 2017)

"Todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola" (Jair Bolsonaro em 2017)

"Tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a 5ª eu dei uma fraquejada e veio mulher '' (Jair Bolsonaro em 2017)

"Ajoelha e chora .... quanto mais eu passo o laço, muito mais ela me adora" (Letra de uma música regionalista gaúcha)

"Fui ao inferno e vi o vale dos homossexuais" (Frase dita pela Pastora Yonara em 2011)

"Se um homem tiver relações com outro homem, os dois devem ser mortos por causa desse ato nojento; eles serão responsáveis ??pela sua própria morte ". (Frase da Bíblia - Levítico, 20: 3 - colocada pelo Pastor Milton França na parte externa de uma igreja na cidade de Entre Rios - Bahia em 2016)

"Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o favor de Dilma Rousseff ..." (Frase dita por Jair Bolsonaro no seu voto pelo Impeachment em 2016 homenageando um dos responsáveis ??pela tortura na Ditadura Militar)

O que temos em comum nessas frases ditas por políticos e religiosos e em letras de música? O que vemos é um discurso da desumanização, do preconceito colocando mulheres como pessoas inferiores, homossexuais como demoníacos, pretos quilombolas como animais, pois, "arroba" é uma medida de peso utilizado para animais ...

Ao mesmo tempo que um dos autores das frases comuns indígenas e pretos como vagabundos, o mesmo relaciona a "autorização para matar" com demarcação de terras indígenas ...

Há uma relação total e indissociável entre o discurso que faz apologia à violência e o ato violento ...

 O discurso tem o poder de legitimar, justificar and autorizar a prática do ato violento. Não sou eu quem estou dizendo, mas sim os dados:

"Brasil teve 105 mil denúncias de violência contra mulher em 2020" (Portal G1)

"Em 2019, três em cada dez mulheres sofreram algum tipo de violência, 1.326 feminicídios foram registrados no Brasil (aumento de 7,1% em comparação com 2018)". (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

"Em 2019, 66,6% das vítimas do feminicídio são negras e a análise de um período mais longo variando de 2008 a 2018 mostra que as taxas de homicídios de mulheres negras cresceram 12,4%" (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

"Violência contra indígenas mais que dobrou em 2019" (Portal G1)

"Relatório constata aumento da violência no campo" (Fonte Portal EBC, 2019)

"Ataque a assentamento do MST é crueldade, diz presidente do Consórcio Nordeste" (Portal UOL, 2021)

"Quilombo está sob ataque de jagunços há 4 dias no Maranhão:" Estão dizendo que vão meter bala "(Brasil de Fato, 2021)

Por isso que nós, enquanto professores, não podemos nos omitir diante de nenhuma declaração que faça apologia à violência, seja ela dita por quem por, pelo Presidente, por um líder religioso e até mesmo aquela que está escrita na Bíblia.

Quantos professores em 2016, problematizaram na sala de aula aquela terrível declaração do então deputado defendendo e elogiando a tortura? Quando ficamos quietos, nos omitimos também estamos contribuindo com a construção do ato violento ...

O ato violento é construído de duas formas, pelo discurso que desumaniza o outro e pelo silêncio daqueles que se omitem diante desse discurso.

Portanto, quando assistimos a atos violentos, nossa indignação não pode ficar apenas determinado indivíduo que comete a violência com sua arma, mas sim naqueles que proferem palavras que constroem o ato violento ...

Quando silenciamos diante de declarações preconceituosas, homofóbicas, racistas somos coniventes com o ato violento ...

Muitos ficam indignados quando se deparam com o sangue escorrendo do corpo de uma adolescente mutilada, mas não se manifestam contra os discursos que promovem essa violência ...

Por isso índico a leitura do texto intitulado "Educação após Auschwitz" escrito pelo filósofo Theodor Adorno. O mesmo refletido sobre o fato de que a perversão nazista nos campos de concentração na Alemanha, poderia ter sido evitada se tivesse sido feita uma reflexão profunda dos porquês dos precedentes da Segunda Guerra Mundial

Boa reflexão!

Um grande abraço!

Evandro Ricardo Guindani

Evandro é natural de Vargem Bonita - SC, graduado em Filosofia, Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Educação. Atualmente é Professor da Universidade Federal do Pampa em São Borja-RS

REFERÊNCIA

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995





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