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O TEMPO jornal de fato

A SOLIDARIEDADE EGOÍSTA

Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos Jornalista (MT/SC 4155)

Isagogicamente, vivemos tempos em que a solidariedade, antes compreendida como um ato genuíno de altruísmo, vem ganhando contornos cada vez mais complexos e, por vezes, contraditórios. A solidariedade egoísta é as características que emergem quando a ajuda ao próximo deixa de ser uma expressão sincera de empatia e se transforma em uma estratégia velada de autoafirmação, promoção pessoal ou quebra da própria consciência. Trata-se de um paradoxo moderno, no qual o ato de se fazer ao outro carrega, disfarçadamente, a intenção de benefício próprio.

Outrossim, o sociólogo Pierre Bourdieu já alertou para ojá alertava para o conceito de capital simbólico , demonstrando como atos aparentemente desinteressados, na verdade, funcionam como mecanismos de acumulação de prestígio e status social. Nesse contexto, a solidariedade torna-se uma moeda de troca invisível, um investimento em visibilidade e reconhecimento público. O advento das redes sociais potencializou essa lógica. Plataformas digitais que nasceram para conectar pessoas tornaram-se vitrines de feitos e gestos solidários, nem sempre desinteressados.

 De outro vértice, a divulgação de ações, campanhas e ações humanitárias muitas vezes extrapola o propósito de incentivar outras pessoas e escandaliza o desejo de reconhecimento social. A exposição do ato solidário torna-se tão ou mais importante do que a ajuda em si, revelando o ego como motivador principal. É a lógica do "faço o bem, mas faço questão que todos saibam", numa espécie de caridade performática, como diria o filósofo Zygmunt Bauman , para quem a modernidade líquida dilui até mesmo os sentimentos, transformando o altruísmo em espetáculo.

Destarte, há ainda a solidariedade praticada como válvula de escape para a culpa individual ou coletiva. Diante das desigualdades sociais gritantes, ajudar o outro em momentos pontuais serve como alívio para a própria consciência, numa tentativa inconsciente de compensar privilégios que não se está disposto a abrir mão. Friedrich Nietzsche , em sua crítica à moral, já apontava como certos gestos de caridade podem carregar, mais do que segura, um instinto de superioridade disfarçado de piedade.

 Doar uma cesta básica, contribuir com uma “vaquinha” ou participar de uma campanha de inverno tornam-se pequenos gestos que mantêm o sujeito confortável em sua zona de privilégio, sem uma intenção real de provocar mudanças estruturais ou questionar o sistema que perpetua as desigualdades.

Por outro lado Esse cenário não diminui a importância das ações solidárias, tampouco desqualifica o bem que elas podem advir. No entanto, é necessário refletir sobre o que motiva a solidariedade no mundo contemporâneo e até que ponto ela realmente cumpre o seu papel de promover a empatia e a transformação social.

Quando a solidariedade nasce de um desejo genuíno de construir um mundo mais justo, ela carrega consigo o potencial de mudar realidades e tocar vidas. Mas quando ela é motivada pelo ego e pela necessidade de reconhecimento, perde parte de sua essência e se transforma em mais um ato de manutenção das distâncias sociais.

O psicólogo Richard Dawkins , ao teorizar sobre o "gene egoísta", também nos provoca a pensar sobre como o impulso solidário pode ter raízes no instinto de preservação, onde o bem ao outro, no fundo, é uma estratégia de perpetuação ou proteção da própria espécie.

Por conseguinte, a solidariedade egoísta se configura retrato de uma sociedade marcada pelo individualismo, onde até mesmo o altruísmo pode ser sequestrado pela vaidade.

Em epítome, reconhecer esse característico se constitui no primeiro passo para resgatar o verdadeiro sentido da solidariedade, aquele que acontece no silêncio dos gestos simples, no anonimato das boas ações e na disposição sincera de olhar o outro não como um degrau para a autopromoção, mas como um semelhante que merece ser acolhido sem condições ou interesses ocultos.


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